análises Artur Serra

Sense8: onde a ficção científica nos mostra o que é ser humano

16.6.15Colaboradores ConversaCult


Amor, raiva, culpa, tristeza... todas essas emoções são os que nos fazem, no final das contas, seres humanos. Mas não só isso: Nossa capacidade de se comunicar e se conectar aos nossos semelhantes, assim como nosso instinto básico por sobrevivência, nos definem como tais. É essa sopa de questões sociais, existenciais, filosóficas e psicológicas que nos estrutura como uma espécie única. E olhando por esse ponto, Sense8 nada mais é do que uma série sobre o que é ser humano.

Assim como nós, Sense8 é uma série complexa. Dos quesitos narrativos, técnicos e até conceituais, ela trabalha muito fora das delimitações atuais para esse tipo de entretenimento. Mas isso não era difícil de se esperar. Sense8 é fruto de uma parceria dos irmãos Wachowski (Trilogia Matrix, Cloud Atlas) com Michael Straczynski (Babylon5, Superman: Earth One, Before Watchmen). Quem está familiarizado com os trabalhos desses três sabe que eles não se limitam a filmes/séries de gênero, sempre expandindo fronteiras e sem medo algum de arriscar e tentar. Sense8, felizmente, não foge à regra.

Caso você não saiba nem de perto do que Sense8 se trata, vou ser breve em explicar: Oito pessoas, uma em cada canto do mundo, misteriosamente começam a se interconectar mentalmente umas com as outras. Cada uma é capaz de acessar os sentimentos, pensamentos e sensações da outra. E, também, de replicar as habilidades umas das outras. Em resumo, essas oito pessoas se tornam uma.



Saber que essa não é uma série “comum” é um conhecimento essencial para quem pretende embarcar nela. Não espere uma ação épica à lá Heroes ou Avengers. Não espere grandes mistérios e corporações malignas como em Arquivo X e Fringe. Longe de ser uma série sobre “salvar o dia”, Sense8 é uma série sobre “sobreviver o dia”. O que aproxima eu, você e todos nós humanos comuns dos personagens que lá são retratados. 

É a partir dessa conexão que a série se desenvolve. Apesar dos demônios que cada um sustenta se diferenciar em nome, num geral eles podem se resumir em uma vontade de serem ouvidos. Os sensate (nome para os membros desse grupo intraconectado) querem ser vistos como eles são, e não pelos conceitos impostos na cabeça dos outros. É um policial lutando por justiça num ambiente injusto, a mulher coreana cansada de sofrer opressão pelo seu gênero, a trans que é rejeitada pela família... todos eles buscam um lugar onde possam estar “em casa”. 

Essa é uma abordagem social interessantíssima, mas que nos primeiros cinco episódios é o foco geral da série. Em alguns momentos chega a ser cansativo fazer as mesmas críticas e os mesmos questionamentos por tanto tempo. Mas também serve para desenvolver os oito personagens principais, assim como o próprio grupo. Inclusive, ver o grupo inteiro como um personagem à parte é um exercício interessante, pois ele é a soma dos desejos, medos, alegrias e ambições dos oito. Entender bem o grupo torna mais fácil entender bem os oito. 



Mas não pense que são personagens muito parecidos. Longe disso. Todos eles são muito diferentes uns dos outros. Em culturas bem distantes, inclusive. E essa decisão foi crítica para reforçar o aspecto de união da série, assim como sua mais importante mensagem: Não importa se você está no Quênia, na Islândia, nos Estados Unidos, na Coréia, na Índia, no México ou na Alemanha. Não importa se você é negro, branco, gay, trans, homem, mulher, rico ou pobre. Você é, antes de tudo, uma pessoa. Um ser humano. E as pessoas em todos os cantos do mundo são iguais a você. Lidando cada dia com seus próprios medos, dores... mas também dividindo as alegrias, sorrisos, paixões. Uma das cenas que melhor representa isso é quando os oito sensates decidem cantar What’s Up das 4 Non Blondes. Nessa cena que é quase um videoclipe eventual, você passeia pelos oito personagens e por suas cabeças, vendo reflexos de quem eles são e do seu cotidiano. É uma cena que tem seu peso ligado às experiências do passado de cada um deles, além de servir como um laço para o presente e uma plataforma para o futuro.

Já que mencionei aqui uma música, devo separar esse parágrafo para comentar a trilha sonora num geral. Ela não é apenas muito boa de se ouvir, mas também – assim como tudo na série – se conecta perfeitamente com o que está na tela (ou na mente dos personagens representados nela). Seja clamando (“Eu não quero ser aquela pessoa deixada de lado” em Hope There’s Someone do Avicii) ou ilustrando uma explosão de desejo (“Eu fritei porque todo o meu amor é eletrificante” em Demons do Fatboy Slim). Porém, a melhor relação de música e narrativa se apresenta em Saeglópur, do Sigur Rós. Em islandês ela é traduzida como “Perdidos no Mar”, e a letra canta “Você se sente sozinho, mas, como um marinheiro, você está sempre em casa” (Ou algo assim. Infelizmente não sou fluente em Islandês). E é de fazer chorar o quão isso faz sentido com o que é mostrado em tela. 

Mas não são só questões sociais que formam a série. A ficção científica e ação também estão lá pra apresentar os sensates e seus antagonistas. A partir do episódio 8 que você vê uma aproximação maior com influências claras dos Irmãos Wachowski, como Arquivo X - de onde o conceito da conexão entre 8 pessoas também foi tirado – e até mesmo releituras de cenas de Matrix. Cenas onde os sensate compartilham suas habilidades em sequências de ação também estão presentes, mostrando que os criadores da série realmente entendem o que estão fazendo. 



E isso é uma dádiva, porque é inconcebível pensar em Sense8 sendo produzida por pessoas que não conhecem de fato como fazer cinema. A complexidade logística deve ter sido absurda, especialmente em diálogos entre as partes, onde o ponto aparece em um país e o contraponto em outro. Fazer isso sem soar desconexo ou forçado é bastante difícil, imagine construir uma grande parte dos diálogos nesse formato. 

Sense8 é, em sua estrutura, tão humana quanto os personagens representados. Ela passeia pelo suspense, ação, comédia e drama assim como qualquer pessoa. Ela mostra que todos nós somos um, e que pertencemos a algo muito maior. Sem preconceitos ou fobias, sem diferenças ou temores, ela busca mostrar que somos todos iguais e que não precisamos ter medo de sermos o que somos. No final das contas, somos todos humanos, e é isso a única coisa que realmente importa. A conexão não está lá para que os sensate compartilhem habilidades, mas para que dividam sensações e se ajudem a sobreviver. Algo que é a base do conceito social do ser humano, e que anda cada vez mais esquecido e ignorado. 

BIO:
Artur é um fã de Rush, futebol, jogos de tabuleiro e ficção científica. Ler um livro de RPG aos 7 anos mudou sua vida completamente. Odeio Interstellar mas adora Gravidade, e adora sua coleção de camisetas de futebol e cultura pop.

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2 comentários

  1. Eu "definitivamente" não ia assistir Sense8 depois da decepção que foi O destino de Júpiter (dos irmãos Wachowski tbm), que até tinha um conceito interessante que poderia ser explorado, mas que tinha personagens quase robóticos, chatos, entediantes ( a personagem principal, por exemplo, descobre um mundo cheio de alienígenas e o tempo inteiro está com a cara "tá ok então", ela não dá nenhuma surtada no filme) . Porem assim que vi esse vídeo https://www.youtube.com/watch?v=G3JQpS5M-34, resolvi dar uma chance pra serie.
    E foi simplesmente a serie mais incrível que eu já assisti. Essa definitivamente foi a redenção dos Wachowski, foi a desculpa deles pro mundo depois de o destino de Júpiter. É claro que eu sai recomendando a serie pra todo mundo que eu conhecia que poderia gostar ( digo isso porque eu acho que talvez essa serie possa agradar mais as pessoas com "mente aberta" para o diferente), e eu não consegui explicar sobre o que era a serie sem dar spoiler. Acho que ela era mto complexa pra mim conseguir explicar porque eles deveriam assistir. E com três palavras vc simplificou o que é a serie “sobreviver o dia" (é isso, agora parece tão obvio), já sei o que dizer quando for recomendar a serie.
    PS: parabéns pelo excelente texto, realmente admiro quem consegue escrever sobre aquilo que gosta, porque eu tenho mta dificuldade em fazer isso.

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    Respostas
    1. Leticia! Obrigada pelo seu comentário <3
      Eu também adorei o texto do Artur e como ele resumiu a série. Curiosidade: nós colocamos nas redes sociais quem queria falar sobre a série, ele apareceu e aqui estamos.

      Não assisti esse filme, nem sabia que era deles! Isso me deixou curiosa pra assistir. HAUHAHA E entendo isso de "mente aberta", sei que meu pai ia adorar a série, mas eu não sei se ele tá preparado pra ver essas coisas. (?)

      E você conseguiu compartilhar sua opinião sobre a série que você gosta muito bem. No fim, é uma questão de treino. Continue escrevendo sobre o que gosta. :)

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