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Não Sou Uma Dessas: O livro em que descobri que Lena Dunham me representa

23.3.15Diego Matioli

Estou protelando essa resenha há algum tempo, mas não posso mais evita-la. Não sei como dizer tudo o que quero, mas farei o melhor que posso. Tenho certeza do seguinte: mais que um livro, “Não Sou Uma Dessas” é uma obra definidora para mim. Pelo resto da minha vida eu terei ele para revisitar e relembrar o Diego de seus vinte e tantos anos e tudo o que ele viveu e superou e como ele foi importante para quem ainda será. E sempre terei em conta como Lena Dunham me ajudou a entrar em termos com meu passado e me mostrou uma forma de aprender com ele.

E isso é incrível. É incrível por que prova que as experiências de uma geração têm algo de compartilhadas. Que para além do seu gênero, identidade sexual, etnia ou personalidade existe a empatia. Se nada disso for válido para você, o livro é incrível simplesmente por que ele me representa. Lena Dunham me representa. E isso nunca vai deixar de ser importante, mesmo se só for importante pra mim.

Talvez você também não seja uma dessas...

É difícil explicar sobre o que é este livro. Ele não é uma história, mas um compilado de artigos de caráter pessoal. Dunham fala sobre sexo, amizades, trabalho, autoestima. Mas principalmente sexo – capitulo que ocupa um terço do livro e tema que ainda ressurge aqui e acolá mesmo depois disso. Seus textos não tem uma estrutura definida, mas muitos deles seguem um padrão: narrar uma série de acontecimentos aparentemente aleatórios para interligar todos no final. Nos primeiros textos parece uma enrolação irritante, mas você acaba percebendo que nada é gratuito ali dentro. Assim que você se acostuma com o processo, começa a tentar procurar a relação dos tópicos e interligar as histórias você mesmo. É bem divertido.

Lena Dunham divando na Marie Claire
As mensagens de Lena não são obvias ou tradicionais, mas são extremamente honestas. Eu me identifiquei com praticamente tudo o que ela fala. Seus problemas para se relacionar com os outros. Seus equívocos pelo caminho. Como ela deixou os homens tratarem ela acreditando que ela merecia aquilo. Como ela se via pela ótica mais negativa sempre. Como seu corpo pagou pela sua ansiedade. Como sempre pareceu existir uma película entre ela e as outras pessoas a impedindo de vivenciar as coisas. Como ela constantemente fugiu dela mesma, ao invés de fugir para ela mesma – e como isso faz diferença. Eu não vou ficar aqui detalhando caso a caso, pois o livro merece ser lido. Vou dizer que me representa. Sou eu escrito ali com ela. Pude me ver expressado nas páginas e foi extremamente gratificante sentir que esses problemas e percepções que eu vivo não são uma coisa isolada. Não são um problema só meu.

Importante dizer: fãs de GIRLS vão aproveitar especialmente a leitura. Não é segredo que os roteiros de Lena carregam algo de autobiográfico, mas é muito mais interessante ler sobre a vida dela e fazer as associações e entender de onde surgiram os arcos de história.

É um livro de cura. Lena nos narra como ela se curou e ainda está se curando de todos os problemas e equívocos do passado – há um trecho muito bonito, por exemplo, em que ela fala que ela não pode voltar a ser quem era. Só o que lhe resta é observar seu passado com espanto e admiração. Consequentemente, pessoas que se identificam com a vivencia dela irão encontrar sua própria cura. Foi o que aconteceu comigo. Eu estava em um momento muito complicado da minha vida e foi a leitura desse livro que me ajudou. Mais especificamente, esse trecho:

“Quando alguém revela que você significa muito pouco e você continua com essa pessoa, sem se dar conta, começa a significar menos para si mesma. [...]Ser tratada como merda não é um jogo divertido ou uma experiência intelectual transgressora. É algo que você aceita, tolera e aprende a acreditar que merece. Isso é tão simples. Mas me esforcei muito para complicar tudo.”

Uma dica: o trecho é aplicável para muitas situações e contextos diferentes. E eu espero nunca me esquecer dele, pois está repleto de verdades.

Nem tudo são flores. Existe uma certa nota de nostalgia exagerada que é insistente no livro. Sobre o ensino médio, a faculdade e os acampamentos de verão ela repete o mesmo pensamento: algo do tipo “eu não sabia o que eu tinha e queria poder fazer tudo de novo para aproveitar melhor”, digamos assim. E embora eu simpatize com o sentimento, pois eu mesmo o tenho em igual proporção, não concordo com essa dose desmedida de arrependimento. Parece platônico demais. Eu pelo menos tenho em mente que se tivesse outra chance de fazer o ensino médio ou a faculdade, provavelmente cometeria os mesmos erros ou outros. Mas nunca seria essa versão ideal que eu queria ter vivido. Nada é perfeito.

Promo da série Girls (e minha perso favorita<3)
No final, o livro é exatamente sobre isso: como inseguranças e ansiedades entram na nossa vida e nos impede de experimentar ela como gostaríamos. E sobre como está tudo bem ser desse jeito, por que isso é mais real. O que importa é aprender com tudo o que acontece e se tornar uma pessoa melhor. A nostalgia acaba sendo um desserviço para essa mensagem, a meu ver.

Também me sinto na obrigação de falar sobre as acusações de que Lena teria abusado sexualmente sua irmã. Há trechos em que ela fala de sexualidade de forma franca. Muito franca. Sobre quando tinha cinco anos e ficou curiosa para saber como era uma vagina e olhou a da irmã. Ou como elas dormiam na mesma cama e as vezes Lena enfiava a mão dentro das calças para “tentar entender alguma coisa”. Eu não vejo nenhum mal nesses trechos, nenhuma malicia. São só relatos honestos a respeito de curiosidades naturais no crescimento. Jamais imaginaria as tais acusações enquanto lia o livro.

O único problema que eu identifiquei foi o fato de Lena ter tirado a irmã do armário contra a vontade dela, e isso é ruim e acho que a autora devia ter feito um esforço maior para enfatizar como o que ela fez é negativo e perigoso. No final, ela fez a experiência girar em torno dela mesma e isso é muito perigoso, pois dá validação para as pessoas fazerem isso e acharem que tudo bem não ter sido capaz de guardar um segredo que não é seu. Shame on you, Lena.

Então é isso. É um livro imperfeito. Mas citando um dos meus trechos favoritos do mesmo: “A Barbie é distorcida. Não tem problema brincar com ela, desde que você se lembre disso.”. Fundamentalmente, ficará a encargo do leitor em potencial decidir se lê ou não a obra – mas fique registrado que eu a recomendo enfaticamente.

Vou deixar aqui as palavras da própria Grace Dunham sobre as acusações de abuso para encerrar essa resenha. Sinto que elas definem muito do que o livro é:

“Heteronormatividade considera certos comportamentos nocivos, e outros ‘normais’; o estado e a mídia estão sempre interessados em manter isso. Como uma pessoa queer: estou comprometida com pessoas narrando suas próprias experiências, determinando por conta própria o que foi ou não nocivo. Hoje, como todo dia, é um bom dia para pensar sobre como policiamos a sexualidade de mulheres jovens, queers e pessoas trans.”


AutoresLena Dunham

Editora: Intrinseca

Paginas: 301





(5/5 Conversinhas e favoritado)

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5 comentários

  1. Eu gostava e concordava com muita coisa que li/vi da Lena, agora com essa resenha foi a decisão de querer ler o livro, mesmo.

    Eu adorei a resenha e essa "coisa pessoal" nela, Diego.

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    Respostas
    1. Que bom que gostou, Helena. Considerando as nossas afinidades em vários aspectos, eu acho que você vai gostar bastante.

      Depois me conte o que achar!

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  2. Peguei o livro hoje para ler, essa resenha veio na hora certa.
    Estou ansiosa, não vejo Girls (vi uns ep aleatórios e gostei, mas o Pilot não me pegou), mas gosto do jeito da Lena falar e me identifico com algumas merdas que ele viveu, então estou pronta para ver se Não Sou Uma Dessas tb.

    parabéns pela resenha Diego.

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    Respostas
    1. Muito obrigado Taiany! E eu realmente espero que o livro seja tão bom para você quanto foi para mim. Sempre simpatizei com a Lena, mas foi só através do livro que ela me conquistou mesmo.

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  3. Olá!

    Eu não conheci o livro, mas achei a proposta bem interessante, me lembrou o "O que eu sei de verdade" da Oprah Winfrey. :)

    Beijos,

    Samantha Monteiro
    http://www.wordinmybag.com.br/

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