blocos carnaval

Não me leve a mal, hoje é carnaval

20.2.15Mariana Frois


Sinceramente, amo o carnaval. Se vasculharem meus álbuns de quando criança, vocês verão: com apenas 8 meses eu já estava no colo do meu pai em um bloco de rua lotadíssimo. Crescendo um pouco, passei a odiar a espuma branca dos sprays, mas tinha minha própria arminha de água. Ficava na piscina cantando samba enredo, e usava roupa com as cores da minha escola de samba de coração. Alguns anos se passaram e quase nada mudou. Fora o fato de o carnaval com os pais não ser mais tão legal, e a pouca liberdade e independência conquistada não ser suficiente para que eu possa curtir todos os blocos possíveis.

Bem perto do começo da folia, a Skol lançou uma campanha falando pra gente deixar o não em casa. Não sou publicitária (e nem pretendo ser), mas, será que os gênios que criaram a campanha não viram que aquela era uma propaganda de interpretação muito ampla e que deixava margem para qualquer tipo de pensamentos? Ficou parecendo uma continuação do filme "Sim, senhor". Mas sem a irreverência do Jim Carey. Porém, se até na comédia de Jim o personagem aprende que falar 'sim' pra tudo pode não ser uma boa escolha, POR QUE DIABOS alguém pensou que a Skol ia bombar no carnaval mandando a gente deixar o não em casa?



Bebeu e seu amigo pediu pra você dirigir? Tudo bem. Tá sem camisinha? Beleza. A mina disse que não te quer? Insiste mais um pouco. Afinal, o não ficou em casa. Mas não é só a Skol que peca nas peças publicitárias. Praticamente todas as cervejarias (e empresas de outros segmentos também) continuam usando a figura feminina de maneira hiper sexualizada, com pouca roupa e etc. Mas ser incentivado a deixar o não em casa foi uma espécie de gota d'água. Engraçado mesmo foi ver a galera reclamando. Uma maioria masculina fazendo questão de lotar comentários em portais de notícias, falando coisas que entristecem qualquer um que leia. Muito fácil dizer que não precisava mudar a campanha quando você não é um dos atingidos. Exagero? Vamos lá, então.


Fui pra um bloco com umas amigas. A minha roupa não importa, seria ridículo basear-se nisso. Se eu bebi? Importa muito menos. A questão aqui é: em cerca de 5 horas no local, um cara me segurou pelo braço, enquanto eu caminhava tentando fugir (puxei a mão assustada na tentativa de desvencilhar). Depois, enquanto eu conversava com uma amiga, um cara segurou meu pescoço e me puxou pelo queixo, tentando me beijar. Fiquei em choque e tirei o rosto a tempo. Mais tarde, um cara me puxou pelo cabelo. Andei mais rápido, já com medo daquilo tudo. Perto do palco, dançando com amigos, um rapaz insistente chegou por trás e começou a insistir para ficar comigo. Falei 'não' quatro vezes. Ele custou a entender. Precisei sair de onde estava para enfim ser deixada em paz. Isso tudo no meu bairro, onde fui criada, num bloco onde encontrei várias pessoas conhecidas. 

Pensava estar segura ali. Não estava. Pelo menos, não totalmente. Me senti incomodada diversas vezes, e não consegui tratar as situações de abuso como algo natural. Na volta, para completar, dois homens falaram várias coisas enquanto eu e minhas amigas voltávamos do bloco. Fiquei pasma com o modo como nos encaravam e se impunham com segurança, sabendo que aquilo ali seria visto como instinto natural do homem, e erradas éramos nós, sozinhas na rua a uma hora dessas. É péssimo ver que tem gente que ainda pensa assim. Espero que no carnaval de 2016, o machismo seja deixado em casa, e a galera vá pra rua vestindo respeito e muito amor.



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1 comentários

  1. Não participo muito do carnaval, mas achei teu post espetacular!
    Me surpreende o fato da grosseria do homem, como são patéticos e pensam que a pegação é o que vale. "Não, meu amigo. Eu não quero ficar com você! Será difícil sacar isso?" e eles se acham o dono de tudo e de todos, no carnaval. Denuncio e fico orgulhosa de mulheres que tomam coragem pra denunciar, pois ninguém gosta de nada forçado, nem eles mesmo que fazem gostam! É horrível saber que no nosso próprio bairro, também esse tipo de coisa, onde nascemos e fomos criadas ali, tem essa barbaridade. Espero que tudo isso um dia passe, e que eles se toquem, pelo menos!

    Mari, gostei muito da postagem e de como você falou sobre sua festa preferida! <3

    Beijo ❤

    21 Invernos
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