a culpa é das estrelas CCAnálise

O Teorema John Green: 4 livros, a mesma fórmula

27.6.14Dana Martins


E aí, galera? Como estão? (por que ninguém nunca responde? EU REALMENTE QUERO SABER COMO VOCÊS ESTÃO, SEUS TROMBADINHA O.Ó) Hoje é a última sexta temática do John Green e vamos terminar com um post escrito por ninguém menos do que: eu. HAUHAHAUH Para ver os nossos textos sobre o autor, clique aqui.

Todo mundo que lê os livros do John Green sabe que eles são meio... parecidos. "Todos os personagens são iguais!" costumam dizer. E eu nem lembro mais como daí eu fui parar em uma fórmula (aqui chamaremos de teorema) para se construir um livro do John Green, mas aqui está. Eu gostei bastante do resultado, espero que vocês aproveitem para criar as próprias histórias ou refletir sobre o que o John Green escreve. Aproveitem. :D


Instruções e Avisos: Para facilitar, se você colocar o mouse sobre os símbolos em negrito aparece o que é (teste aqui: F), o mesmo serve para relembrar de qual livro é o personagem (teste aqui: Asami). Aqui tem spoilers de todos os livros, mas você pode ler só prestando atenção nos exemplos dos livros que você já leu. Essa é uma análise de como o John Green usa os mesmos elementos para contar histórias diferentes. Aqui está o teorema*:
*qual é a diferença entre teorema e fórmula?

Pronto, é isso. Agora escrevam. 

Já começo dizendo que minha fluência em matemática é mínima, então eu coloquei em fórmula pra ficar mais bonitinho e usei esses desenhos lindos pra ajudar a fixar. A fórmula significa que todas as letras dentro dos parenteses são elementos fixos, que são alterados pela variável Q. Ou seja, se você usa o Q (tipo tema principal, questionamento) para transformar os outros elementos, colocando tudo isso na sua história, é bem capaz de que você tenha como resultado um livro do John Green. 

Agora deixa eu explicar cada elemento e como o John Green usa isso em todas as suas histórias:



Esse é o coração dos livros do John Green, o tema principal. Todos eles são sobre personagens procurando dar significado à vida e entender o seu lugar no mundo, cada um sob uma perspectiva diferente que tematiza toda a história. Na ordem de lançamento:

Quem é você, Alasca? e o Grande Talvez, que eu já falei demais aqui para ter paciência para repetir, a adoração do Gordo com "últimas palavras" (o que as pessoas dizem à beira de uma jornada sem volta para o desconhecido!), o conflito da Alasca com o labirinto. 

O Teorema Katherine temos Colin, um garoto que aprende tudo rapidamente, mas não consegue enxergar o significado nelas (ou seja, o significado de fazer as coisas na vida), o uso da matemática pra fazer o teorema, a Lindsey não querer nada grande mesmo podendo. 

Cidades de Papel, é sobre as pessoas serem mais do que pessoas de papel e o oposto disso, imaginar que elas sejam mais do que pessoas. Quentin fica preso nos mistérios e cria significados que não existem pra pistas, a idealização da Margo, a questão das "cidades de papel", o livro ser como um mistério...

Em A Culpa é das Estrelas nós temos o caso de uma pessoa que pode morrer (mas estamos todos morrendo, porque isso é um efeito colateral de estar vivo, então temos que aproveitar o nosso infinito), o livro favorito da Hazel é uma marca da preocupação dela com o que vai acontecer depois que ela morrer (Peter Van Houten pergunta por que ela acha que está tão interessada no que acontece depois do final), o medo do Gus de ser esquecido tem a ver com isso.



Protagonista que é jovem, que parece o "nerd excluído" - só alguém sem uma vida social muito ativa, que tem um nível de interesse acima da média em alguma coisa específica. Ele não chega a ser tão marcado por isso, é só mais alguém normal que não é muito popular. A característica marcante é instrumental para a moral da história (Q). Colin é o menino prodígio que sabe tudo, Gordo guarda últimas palavras, Hazel é viciada em livros (ou em um livro sem final), Quentin cria mistérios...

Repare que aqui nesse post nerd significa mais "tem um nível de interesse acima da média em alguma coisa específica, não muito popular"


Sempre tem um grupo de amigos para viver aventuras, o número de integrantes e relevância varia dependendo da história. Os personagens desses grupos vão ser marcados por características específicas e precisam representar alguma diversidade (outros países, crenças, cor de pele, tipo de corpo...). O grupo de amigos ajuda a dar o alívio cômico e sua caracterização também é relacionada a algo que vai contribuir na jornada do protagonista (o Q), tipo em Cidades de Papel, que temos o Radar (vive editando as coisas no Omnictionary e é negro) - estão procurando Margo e ele tem um site que armazena informações. Em A Culpa é das Estrelas, o Isaac (caso com a namorada e cego) - todas as piadas de cego, que reforçam a ideia de que são mais "pessoas" do que "com problemas"

Fórmula dos personagens do John Green: é alguém com uma característica marcante interessante, relacionada a jornada (Q), + diversidade. O grau de diversidade depende do nível de protagonismo (se é o protagonista, é baixo. se não é, fica alto.) Diversidade pode ser "representatividade" também. E a relação da característica marcante com o Q da história varia de acordo com a relação com o protagonista. 

*Coloquei o interesse amoroso (I) tanto aqui quanto separado porque ele meio que cumpre essa função dupla: em parte, todos os I fazem parte do An (ou já fizeram), só que é como se eles tivessem também uma relação especial separada com o Pc.



Aquele menos ali na fórmula eu coloquei pra mostrar que interesse amoroso normalmente é o oposto do protagonista, é como se o Q (questionamento) fosse um quebra-cabeça e o Pc e o I fossem partes complementares e opostas. Enquanto Gordo está lutando para conquistar seu Grande Talvez, Alasca está presa no labirinto do sofrimento. Enquanto Quentin super idealiza as pessoas, Margo as enxerga como pessoas de papel. Colin quer fazer algo fenomenal na vida, Lindsey está feliz vivendo na roça. Hazel foge da vida para não marcar os outros, Gus quer deixar uma marca na vida de todos para sempre. 

E, é claro, todos eles são idealizados (trope Manic Pixie Dream Girl, que acho que até o Gus também se encaixa). Em parte porque isso é uma essência do romance e eles precisam ser personagens que fazem o protagonista querer sair da zona do conforto. Ao mesmo tempo, o John Green trata isso de forma interessante, porque durante a narrativa ele tenta ir além da idealização. A Alasca é idealizada pelo Gordo ao mesmo tempo que o livro se chama "Quem é você, Alasca?" (Quem ela é além da idealização?), as Katherines e o romance é super idealizado pelo Colin, então ele encontra a Lindsey (a primeira impressão que o Colin tem dela é baseada na revista que ela lia). Como se isso não fosse o bastante, ele cria Cidades de Papel, que é justamente sobre a idealização das pessoas (principalmente o interesse romântico). E até em A Culpa é das Estrelas, que ele repete isso com o Gus, o John Green faz questão de mostra-lo vomitando e aos pedaços no final. 

Repara nessa narração (N) auto-consciente, como ele brinca com o estereótipo (idealização) só para quebra-lo. 

Pensando aqui, o Colin é o único que termina a história com uma namorada, apesar de não ser a que ele queria no início.

No fim do dia, em todos os livros ainda há uma pessoa nova legal que vai aparecer para mexer com o coração do protagonista e tirar ele da zona de conforto.


Normalmente uma road trip, mas qualquer tipo de viagem funciona. Nos livros elas estão relacionadas à jornada do protagonista e acho que servem como um meio concreto de apresentar a busca pela transformação pessoal. A Hazel vai para a Europa, o Colin vai numa road trip sem propósito, o Quentin entra numa corrida louca para chegar até a Margo a tempo e o Gordo viaja para um colégio interno para tentar ter uma vida melhor. 

Ainda dá pra ir além quando se trata de viagem no livro do John Green, dá pra encarar como metáfora para a jornada da vida: A Alasca tem sua viagem interrompida pelo acidente. Um momento importante da história do Gus é quando ele não consegue mais dirigir sozinho - não consegue mais levar a viagem dele em frente (aliás, a doença não colocou a viagem da Hazel em risco?). E a Margo está viajando para se descobrir. No fim a Lindsey está viajando com o Colin. 


O John Green não tem uma narração direta, acho que ele consegue colocar poesia no que escreve e isso triplica o significado. "Me apaixonei do mesmo jeito que alguém cai no sono: gradativamente e de repente, de uma hora para outra." E ele fica melhor a cada livro.

Ele também tem total controle sobre a forma como ele divide a história. Às vezes em partes, ou horas ou o que for mais interessante. Ele nem se prende a isso, tipo em Cidades de Papel que no final é a viagem de carro mostrada em trechos das horas. 

Outra coisa legal é que ele leva pra narrativa a "característica" do protagonista, tipo a Hazel falar coisas como "Privilégios do Câncer" ou "Doente Profissional" que aumentam o sentido e deixam mais divertido. Em Teorema Katherine o Colin e o Hassan também usam abreviações para falar dos amigos da Lindsey, ou os anagramas.

Ele usa outras formas de contar a história*, tipo diálogos online ou liberdade pra apresentar diálogos desse jeito:
Mamãe: "Você vai para o Grupo de Apoio." 
Eu: "SAAAAAAACO."
Mamãe: "Hazel, você merece uma vida."
*e as incríveis notas de rodapé de Teorema, que também são relacionadas ao Q da história.

Quando ele não usa a matemática ou não está narrando a história de outro livro dentro do dele (para acabar com o mistério: a Hazel faz isso). 

São aspectos particulares que combinados fazem uma diferença enorme. Só pra dar ênfase: o N da história também é transformado pelo Q


Em uma história de ação com agentes especiais você pode colocar perseguições sobre trens em movimento, relógios que na verdade são armas secretas e cadáveres que são um mistério. Perto disso, como contar uma história contemporânea sem ficar tedioso? Além das viagens de carro (V), em todo livro o John Green consegue um relativo para isso. Ele coloca pequenos momentos de ação com algum propósito para animar a historia. O mais marcante, é claro, é Cidades de Papel que o Quentin tem certeza de que a Margo deixou pistas, então quase vira um mistério de verdade. No início a garota ainda aparece de repente na janela para eles passarem um trote num pessoal. Falando em trote, em Quem é você, Alasca? esse é o mesmo recurso usado pelos alunos no colégio interno. Em A Culpa é das Estrelas tem a vingança do Isaac. Em O Teorema Katherine eles vão caçar. 



Em todos os livros os personagens se baseiam em livros (ou cultura) para agir e a forma que eles fazem isso tem a ver com o personagem (Q). Hazel é o melhor exemplo, com o Uma Aflição Imperial - o Paulo já até analisou a relação dela com o livro aqui. E não é só isso, mesmo quando ela lê O Preço do Alvorecer (livro do Gus), ela analisa falando da quantidade de pessoas que morrem. Gordo lê biografias, o que é bem interessante se você pensar no livro "Quem é você, Alasca?" - ele tenta conhecer as pessoas. Os livros (livro? música? poema? não lembro) que Quentin lê são os que ele acredita que são pistas da Margo (relacionado ao Q) e tem até uma parte ótima que ele discute um poema com a professora de inglês (imagem abaixo). Colin lê um livro de instruções ou qualquer coisa que não é literatura, e tem a ver com ele guardar a informação e não compreender o significado. 


alguém tem o livro em português com a tradução disso?



Em todas as histórias aparece uma figura adulta para dar dicas ao protagonista (o mestre?). Gordo tem o professor de religião. Quentin a professora de inglês. Hazel o Peter Van Houten. Colin minha memória não consegue fixar um, talvez sejam vários (mãe da Lindsey, velhinhos..).

Observação:
Outra coisa interessante que eu vi é como ele insere sexo nessas histórias. Eu consigo lembrar de momentos de sexo em todos, menos o Cidades de Papel (é pelo menos citado? eu realmente não lembro). Gordo e Hazel têm sua primeira vez na história, Colin encontra o outro Colin com a amiga da Lindsey. Achei legal citar aqui porque são histórias YA contemporâneas, então não é comum ser tão explícito como é nos livros dele. E ele tenta quebrar um pouco a idealização, acho. 

Depois disso tudo não achei algo legal pra fazer a divisão, então coloquei um gif de pizza. 
Ou seja...

Q (Pc + An + I + V + N + Ar + CC + M) = livro do John Green


Q = Questionamento sobre significado da vida

Pc = Uma pessoa (+alguma característica marcante)

An = Amigos nerds

I = Interesse amoroso que vai desencadear isso

V = Viagem

N = Narração

Ar = Ação na vida real

CC = Cultura com significado

M = Mestre

Por hoje já foi muita coisa, mas quero encerrar dizendo que não é como se o John Green fosse um gênio do mal em um laboratório tentando induzir pessoas a comprarem seus livros. Todo livro tem elementos de narrativa (imagina parar pra fazer a análise dos 7 livros da JK Rowling) e todos eles seguem uma estrutura - já ouviu falar na Jornada do Herói? Talvez não, mas você com certeza já leu/assistiu algo que segue essa estrutura.

No caso do John Green,  o principal é o que ele consegue dizer usando essas partes do teorema. Ele pode repetir todas essas coisas e aprofundar alguns temas periféricos, mas o questionamento principal sempre muda. É a variável da equação. E ele usa essa variável com bastante liberdade criativa: você vê pelos detalhes sobre os personagens (tipo o uso do CC). Então não basta criar uma história usando essas coisas de qualquer jeito, você precisa criar uma harmonia para transmitir um Q. 

Quando eu falei no nosso twitter sobre o John Green seguir a mesma estrutura, alguém falou algo como "eu desisti de ler os outros porque é previsível." E eu respondi: "Eu continuo lendo pelo significado." Coisas como o Grande Talvez já viraram parte da minha vida - e isso porque eu nem analisei a sério cada livro. E isso que é arte, não é? Transformar as pessoas?

-dana martins


"Acredito que daqui a alguns anos, se eu olhar pra trás, sempre vou ver os romances do Green como uma parte importante da minha adolescência - não só pelas histórias, mas por tudo que elas proporcionaram." - Paulo na nossa newsletter, leia completo aqui


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3 comentários

  1. Eu estou ótimo, Dana. Obrigado por perguntar. E você?
    Bem, achei o título do post... matéria... artigo... não sei como chamar... intrigante, pois já havia visto em outro lugar que o John Green tem uma jeito único de fazer seus livros. Até o momento, só li "Quem é você, Alasca?", de modo, que gostaria de saber se vale a pena investir nos outros romances dele. Acabei de ler seu post... matéria... artigo... não sei como chamar... e resolvi o meu questionamento, devo ler TUDO! Achei sua escrita bem legal, desenvolveu uma ideia e deixou-a intrigante e bem explicada. Soube, além de tudo, deixar a matemática do assunto curtível, se é que me entende. Enfim, só queria mesmo dizer isso. Ah, um site que o Sr. Google me mostrou "Teorema é um fato cuja verdade precisa ser demonstrada. Fórmulas são equações que executam cálculos sobre valores em uma planilha." Muito louco, né?

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    Respostas
    1. Bem também. :) Eu chamo de post ou texto, mas o que você quiser tá bom. Obrigada por esse comentário, Renato <3 <3 <3 Eu adoro saber o que quem lê tá achando do texto. E você ainda explicou o que é teorema <3 <3 <3 Nesse caso, isso aqui é mesmo um teorema!

      Sobre ler os livros do John Green: quando li Cidades de Papel não queria ler mais nada de tão bom que foi, não queria estragar. Quando vi já tinha lido tudo. Cada um traz uma perspectiva importante e questionamentos existenciais que têm a ver com o que sentimos. Gostar ou não acho que depende do quão conectado com o tema você está. Mas independente disso, tem muita coisa boa pra aproveitar. Boa leitura!!

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  2. Incrivel! Texto maravilhoso!!!
    Muito obrigado por isso!!!
    curti, compartilhei, avaliei!
    ME deu vontade de te dar um abraço!
    Muito bom mesmo!

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