clube de escrita Dana Martins

Clube de Escrita: Dissecando histórias como Leornado Da Vinci

18.12.13Dana Martins


Oi todo mundo! Finalmente chegou a hora de conversar sobre estudos de escrita. Você sabe o que é isso? Você já parou pra fazer alguma vez? NÃO? COMO ASSIM? Vem, vem comigo nessa aventura de semi-filosofia sobre aulas de escrita e algumas ideias sobre como começar a escrever melhor.

NÓS NÃO APRENDEMOS A ESCREVER NA ESCOLA

Sabe o que eu acho? As pessoas têm a ideia errada de que escrever é aquilo que a gente aprende na alfabetização. Mas durante todo o tempo que passamos na escola isso melhora, né? Não. Passamos por conjugações de verbos, encontramos o sujeito e separamos um objeto indireto. Nós viramos mestres das classificações também! Não lembro de nenhuma no momento para citar. E somos corrigidos em mil erros de português... Aprendemos a identificar o bucolismo no Barroco brasileiro, aprendemos o que é carpe diem e decoramos qual autor é de onde. E as redações? Introdução, desenvolvimento e conclusão. Com direito a frases prontas.

Desde os primórdios a humanidade os jovens estudantes brasileiros lutam para entender a diferença entre Por que, porque, Por quê, porquê... (que no final você já tá POR QUE TANTO POR QUE NA MINHA VIDA, SENHOR???)

Isso tudo é muito legal (às vezes) e nós aprendemos muita coisa (quando aprendemos). Mas a verdade é que na maior parte do tempo nós não estamos aprendendo a escrever, porque escrever não é saber se consertar é com S ou C ou se isso é verbo, adjetivo, substantivo ou artigo. 

E o problema mesmo disso é que, confundidos com a ideia de que isso é saber escrever, nós não temos uma aula de escrita propriamente. Nós temos aulas de música (apesar de eu achar que poderia ser melhor), ou de desenho. Agora de escrita? Não.

(sim, há cursos e em outros países há aulas de "escrita criativa" ou até aulas de roteiro, que acabam cobrindo campos que nossas aulas de "escrita" não cobrem)

FELIZMENTE, NÓS APRENDEMOS A DESENHAR E FAZER CINEMA (não na escola, mas)

Então isso que eu vou falar no post de hoje vem do desenho. Não que eu seja desenhista, é só que depois de horas no deviantart babando em cima do trabalho de ilustradores geniais a gente acaba aprendendo algo. Por exemplo, eles não apenas desenham, como fazem diversos "testes" para treinar habilidades específicas e melhorar a capacidade de desenho no geral. Uma vez encontrei até um tutorial que ensinava as diferenças entre um quadril feminino e um quadril masculino. E isso se chama: estudo.

No tumblr de um dos criadores de Avatar: Legend of Korra, eu encontrei alguns esboços com a legenda "referência é tudo!" 

Você pode fazer um teste rápido agora. Pegue um papel e desenhe algo de cabeça, pode ser o zumbizinho que fica eternamente andando na barra esquerda do CC ali em cima. SEM OLHAR! Depois que terminar, desenhe novamente observando o zumbizinho. Olhe bastante. (aproveite e clique nele para surpresas...)

O mesmo serve para a escrita. Descreva de cabeça a imagem do carro do John Green (barra lateral esquerda do CC, embaixo de "livros"), depois descreva observando.

50 TONS DE ESTUDO

No mundo do desenho, há diversos estudos. As pessoas vão para lugares especiais só para sentar e desenhar, às vezes ficam um tempão desenhando diferentes tipos físicos de corpo humano, fazem estudo de partes do corpo humano, estudos de luz, estudos de cores, de animais ou sei lá do que. Nem sempre aprender a desenhar é chegar com tudo fazendo um desenho completo maravilhoso. 

Ah, você já deve ter visto Titanic, Jack era um desenhista e usou a Rose de modelo. Se não viu, assista para estudar como um romance consegue ter o mesmo impacto de uma história de ação/aventura. Dica: iceberg.

O estudo também não é só observação e desenvolvimento, há também o estudo de outras obras. Eu sempre vejo em dicas de escrita alguém falando "leia muito." Como assim ler muito? O valor de "ler muito" é conhecer diferentes formas de se contar uma história.

E, só pra completar, não basta apenas ler, porque também existem diferentes formas de leitura. Na faculdade acontecia muito:
"E aí, leu texto?"
"Li, gostei bastante."
"Sobre o que é?"
"..."
E lá ia eu ler novamente, dessa vez anotando e resumindo cada parte pra entender o que realmente estava acontecendo ali. E mesmo esse "entendimento" pode ser feito em vários níveis: você ver o conteúdo, estrutura de parágrafos, de frases e uso de palavras. Depende muito do que você quer.

HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE FAZEM ESTUDOS

Eu aprendi a começar a fazer esses estudos por acaso: estudando redação para o vestibular. As minhas não eram boas e eu não conseguia, de jeito nenhum, entender o motivo. Então eu tive a ideia genial de procurar na internet redações nota 10 e ver o que eles estavam fazendo que eu não estava. Fazendo isso fui percebendo que eles sempre repetiam algumas estruturas, como era o desenvolvimento e a partir daí minhas redações melhoraram muito.

Com o tempo, sem eu nem perceber, isso se juntou na escrita. Calma aí, como é que os autores fazem X coisa? E lá vou eu procurar nos livros. 

Também descobri que vários outros autores fazem isso. Uma vez no blog da Companhia das Letras uma autora estava falando sobre sexo na literatura, um post que surgiu porque antes ela andou pesquisando como diferentes autores narravam sexo para o seu novo livro. Outro dia no site de uma autora encontrei uma lista de tipos de vilões, porque ela estava fazendo uma pesquisa sobre vilões legais para poder criar o próprio. Até a Stephenie Meyer para criar Crepúsculo fez uma pesquisa sobre tipos de vampiros na literatura e em uma entrevista o Isaac Marion disse que para escrever Sangue Quente pesquisou todo tipo de zumbi.

Uma vez vi um autor falando que até vai para rua e gosta de ficar escrevendo o que as pessoas falam ao seu redor, quase como num ditado, para aprender a escrever mais como as pessoas falam.

Não é exatamente fácil fazer essas coisas, porque você leva um bom tempo analisando, para depois adaptar parte disso a sua história e uma parte mínima continuar com você na escrita, mas de pouco em pouco a gente vai chegando lá. Cada vez que você produz algo você é um escritor melhor. 

POR QUE EU FARIA UM ESTUDO?

Todo mundo que escreve faz esses estudos mesmo sem perceber. A autora Iris Figueiredo já falou no Literalmente Falando que usa um gravador para diálogos e tem um caderno de sensações e ideias absurdas! A diferença é que quando você percebe, você tem o controle sobre o que você estuda e sobre as habilidades que você quer melhorar. Sem falar que é uma mão na roda para superar bloqueios.

Agora a pergunta: quantas vezes você já fez isso com a escrita? Parou pra descrever lugares, ou sensações, ou pessoas? Fez um estudo envolvendo personagens e características, ou criou diferentes narrativas só para treinar diversos tons? 

Na maioria dos casos (inclusive eu), a pessoa já sai com tudo direto para o ataque: vou escrever meu livro. Uma história inteira. E falha miseravelmente se achando a pior pessoa do mundo.

Para quem não sabe, o Leonardo Da Vinci vivia dissecando cadáveres para observar. Não recomendo ir tão longe, mas se até ele fazia isso, por que não você? 

-dana martins

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2 comentários

  1. Olha , tenho que admitir que depois que eu li tudo isso me deu uma vontade danada de sair estudando , pesquisando coisas novas . A partir de hoje irei começar a estudar mais , quem sabe eu consiga melhorar tanto meus desenhos , como minha escrita :)

    Beijos .

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  2. Uma coisa legal de fazer se você tá inseguro quanto a estrutura de seu livro é pegar bons livros daquele gênero e dissecar o pacing de conflitos, ações e afins daquele livro. Como sou preguiçosa, uso geralmente o Recaptains (um site com resumos de séries literárias YA, geralmente pra ajudar a lembrar) e tento entender porque a Veronica Roth, por exemplo, colocou tal cena em tal lugar em Divergente e afins.

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