Ana Luíza Albacete CCFilmes

[RESENHA] "Amazônia - O Despertar da Florestania" de Christiane Torloni e Miguel Przewodowski

15.11.18Ana Luíza Albacete


Antes de qualquer coisa, eu preciso contextualizar vocês com algumas histórias de vida: meus pais carregavam a mim e meu irmão para conhecer esse Brasil dentro de um carro por horas e horas até chegar em algum lugar que pudéssemos armar acampamento e ficar por dois ou três dias e, logo em seguida, seguir viagem. Nessa brincadeira, eu conheci o litoral todo do Rio de Janeiro até Olinda - PE.

Uma das mais antigas lembranças que tenho é de chegar em Regência - ES - e ter um Projeto Tamar. Na época, meu pai fazia faculdade de biologia e os agentes avisaram que as tartarugas iriam nascer no dia seguinte. Meus pais arrumaram um lugar pra passarmos a noite e assim que amanheceu fomos para a praia. Ali, aos três anos de vida, eu vi tartarugas proporcionais ao meu tamanho saindo de dentro da areia e indo em direção ao mar revolto de Regência. Quando vi que a maioria delas chegavam próximo à beira do mar e ficavam virando cambalhotas, não conseguindo sair daquela posição, eu saí correndo para ajudar as pobres tartaruguinhas a irem para casa (meu pai brinca até hoje falando que naquele dia, eu salvei muitas tartarugas).

Também me lembro de um dia chegar em alguma cidade da Bahia e ter uma tribo indígena. Entramos lá, visitamos e conhecemos alguns índios. Aquilo para mim foi uma das coisas mais fascinantes no auge dos meus 5/6 anos. Lembro de ter levado um arco e flecha pra casa naquele dia (e não deixei mais ninguém em paz desde então).

Essas viagens e experiências me levaram a ter uma conexão muito grande com a natureza. Eu não sei até hoje se acredito em Deus, mas eu posso te dizer que eu acredito na Natureza. Na sua força, na determinação, na singularidade e no foco. A natureza sempre sabe o que tem que fazer. Onde, quando, que horas e por quê. É uma vida de resistência. Se o homem vai lá, constrói uma cidade, colocando calçada e asfalto, a natureza chega de fininho e no meio daquele cimento todo surge um verde, um amarelo, um marrom, para ninguém esquecer que quem manda aqui é ela e nós estamos apenas de passagem por esse mundão.

Desde que me entendo por gente eu admiro a atriz Christiane Torloni, por sua força, seu talento, sua determinação e sua singularidade. Desde sempre, esses eram os aspectos que me chamavam atenção nela.


Lembro a primeira vez que a vi pessoalmente, ela parecia ter três metros de altura... uma deusa, um ser intocável, quase do tamanho de uma Sumaúma. Lembro que eu pedia atenção e ela não me dava, então cutuquei seu ombro até ela virar para mim e eu falar: “OI!” com um sorriso mais largo do que o Rio Amazonas.

Naquela época o manifesto do “Amazônia para Sempre” já existia. O encontro com ela foi após um bate-papo na Bienal do Livro, mais exatamente no Café Literário, sobre meio-ambiente e sustentabilidade. Lembro que fiquei feliz de ver alguém que eu tanto admirava se preocupar com algo que eu achava fundamental para a existência humana, porque para mim a forma que nós tratamos o mundo é a forma que ele vai dar de volta para nós. Então, eu sempre fiz questão de respeitar bastante tudo que via pela frente, cada animal, cada rio, cada mar, cada coral, cada peixe e tartaruga... Tudo.

E como a vida é curiosa, poucos anos depois Christiane anunciou que ia fazer um documentário sobre a Amazônia. Talvez, esse tenha sido o filme que eu mais esperei em todos os meus anos de vida. Um documentário dirigido por uma pessoa que eu admiro e sobre um assunto que me interessa. Mas aí é que tá, esses anos que passaram, enquanto Christiane Torloni ia e voltava da Amazônia (confesso que morro de inveja dessas viagens porque na minha bucket list Amazônia é uma delas e até hoje não fui por pura cara de pau), eu ia e voltava da faculdade de Cinema, na Zona Sul do Rio de Janeiro.


Durante os cinco anos de faculdade, descobri que fazer e produzir cinema não era fácil. Durante os cinco anos produzindo o documentário Christiane descobriu que fazer cinema não era fácil.

Uma resistência ao sul e outra resistência ao norte.
Natureza é resistência. Cinema é resistência. Amazônia é resistência. Arte é resistência.

Eu tive o prazer de assistir ao filme “Amazônia - O Despertar da Florestania” e é exatamente sobre isso que esse documentário fala. Resistir. Lutar pelo que a gente acredita e pelo que a gente ama. Tantas pessoas falam e são lembradas nesse documentário que você se pergunta em que momento, na sua educação primária, você deixou de ouvir falar sobre Marechal Rondon, Chico Mendez e Darcy Ribeiro. Até mesmo sobre pessoas que tentam ao máximo nos dias (sombrios) atuais em que vivemos e não tem a notoriedade que precisam para que possamos entender que sem Amazônia morreremos.

Ver na tela grande que, desde a Ditadura Militar, as pessoas não ligavam para a preservação do meio ambiente é uma coisa triste. É horrível pensar que as pessoas colocam o lucro, o dinheiro e o capitalismo na frente de qualquer coisa que seja sustentável e que vá fazer para que o mundo seja melhor na questão climática. Afinal, se não há meio-ambiente como é que os seres humanos serão capazes de viver em algum canto?

É um tanto quanto impactante assistir aquelas imagens de fogo na floresta, extração ilegal de madeira e a construção da Belo Monte, no Parque Nacional do Xingu, em tela grande. É assustador ver que isso tudo acontece embaixo dos nossos narizes e nunca fizemos nada e muitos de nós, talvez, nunca fará absolutamente nada para resolver. Assusta demais em pleno 2018 vermos o debate de energia limpa e, no Brasil, temos a construção da maior hidroelétrica do mundo, onde vai acabar com a vida de família ribeirinhas e ecossistemas da região.


Uma das coisas que acabam com a Amazônia é a Agricultura e a Pecuária. Fazendeiros desmatam para criarem descampados de soja para a exportação ou para alimentar o boi que vai para o abate e sua carne exportada. Quer dizer, a triste realidade da nossa floresta é o desmatamento para sustentar outros países? Até que ponto o nosso país, os nossos governantes vão permitir o genocídio de um ecossistema visando lucro em cima de outros países ao invés de se importar com as milhões de pessoas que vivem aqui?

Obviamente que dinheiro é importante, mas vocês já pararam pra pensar que se a floresta acabar não vai sobrar absolutamente nada, inclusive água? E a gente está caminhando para isso há alguns anos e ninguém se move.


Existe uma frase dita por Christiane no documentário que é a seguinte: “Todo brasileiro deveria visitar a Amazônia pelo menos uma vez na vida”. Eu concordo, mas se você não pode visitar a Amazônia, tente ao menos se reconectar, entender e ir em algum parque que tenha na sua cidade. Passe algumas horas lá ouvindo o som. Ouvindo o que a natureza tem para te dizer, se você estiver disposto, eu tenho certeza que você vai ouvir um grito de socorro, um desespero, de alguém que está sobrevivendo com ajuda de aparelhos e que a única solução é a conscientização.

O Documentário é um soco no estômago para qualquer espectador. É um filme necessário no momento em que o país vive, na transição de governo e, principalmente, para tentar conscientizar as pessoas de que se não abrirmos os olhos agora, daqui a trinta anos, talvez, não tenhamos mais nada. O engraçado é que na Constituição que vem sendo tão falada nos últimos meses, o Artigo 225 diz: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”.

Ora, se defendemos tanto a Constituição, por que não fazemos valer o que está escrito nela? Por que não cobramos o que é nosso por direito? É uma faca de dois gumes, até porque, a maioria da população brasileira acredita que depois que cumpriu o dever cívico do voto, nada mais deve ser feito durante os quatro anos que aquelas pessoas estão em mandato. E é aí que a ecologia se mistura com a política, não podemos permitir que àqueles que demos, literalmente, nosso voto de confiança finjam que nossos desejos não existem.

O documentário mostra esse esquecimento da população também. Priorizando a saúde e a educação como o bem maior que existe nesse país e quando questionadas sobre a Amazônia as respostas foram algo parecido à: “a prioridade não é essa, quem sabe na próxima manifestação”.


Seguido disso, eu venho parafrasear uma das coisas mais lindas que eu escutei nesse documentário: "Eu fico me perguntando quando foi que a gente esqueceu que o nome desse país é o nome de uma árvore. Que o que corre nas nossas veias não é sangue é seiva”.

E aí eu te pergunto: quando foi que nós, cidadãos desse Brasil, deixamos isso tudo acontecer com a nossa floresta? Quando foi que nós permitimos que nossos governantes fechassem os olhos para o que acontece? Quando foi que fechamos os olhos para o genocídio de índios que não é noticiado?

Na verdade, a pergunta agora é outra: Até quando?


***

Título: "Amazônia - O Despertar da Florestania"
Direção: Christiane Torloni e Miguel Przewodowski
Produção: Christiane Torloni
Com: Lucélia Santos, Juca de Oliveira, Mírian Leitão, Marina Silva, Fernando Henrique Cardoso, Carlos Minc, André Trigueiro e Frans Krajcberg...
Duração: 111 minutos.
Lançamento: Abril 2019
Documentário



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