Burn Out CCdiscussão

Séries estragam personagens metafóricos

9.9.17Dana Martins


Vou começar falando que discordo de mim mesma com esse título: não é que séries estraguem coisa nenhuma, é que existem tipos diferentes de história. Mas vamos devagar, deixa eu explicar todas as confabulações que me levaram a essa conclusão. / Esse é um texto onde eu discuto histórias realistas mais metafóricas só pra refletir sobre construção de personagem porque a vida é minha e eu faço onde quiser. 


Eu comecei a assistir o curta animado Burn Out, onde uma mulher cai com uma nave em um planeta avermelhado e no meio do nada encontra uma garotinha. E não é só qualquer garotinha, ela parece uma garota da Terra qualquer que a gente vê brincando nas ruas. Então a gente se pergunta: como essa garotinha poderia estar em um lugar desse?

Eu, enquanto assistia, cogitei que a garota fosse uma versão dela mais nova, como se a personagem tivesse "alucinando" e seguindo o próprio espírito jovem pra explorar o planeta. Tanto que a garotinha sai correndo e chama ela numa aventura. 

Foi aí que meu cérebro pensou: Isso não poderia acontecer em uma série. Na hora, foi um daqueles momentos de revelação que eu tive que parar o curta (ainda não assisti tudo, então não sei que porra da garotinha é essa ou o que vai acontecer) e investigar o que esse pensamento significava.

Aí eu penso em Little Witch Academia, porque nessa semana eu estava pensando sobre essa série de uma perspectiva completamente oposta: Eu queria mais dos personagens. Eu queria poder ver o desenvolvimento emocional da "vilã" Croix, da jornada que levou a heroína Chariot a desaparecer e se corromper. Eu queria ver Diana, a "menina malvada" da escola que não é "menina malvada," lidando com as inseguranças ao encontrar a protagonista Akko, que faz ela questionar o próprio mundo. Eu quero - eu não sei exatamente o que eu quero, - mas é algo mais do que esses vislumbres que nós vemos do personagem no meio da trama da série.

Isso não serve só pra Little Witch Academia, isso serve pra filmes e séries no geral. É por isso que acaba sendo tão legal ler fanfic, porque só em vez de ver personagens no meio da ação se transformando e a coisa toda acontecendo, a gente pode explorar passo a passo dessa jornada. A gente pode ver o personagem existindo e sendo testado de maneiras diferentes. A gente pode ter uma abordagem mais humana de cada personagem. 

O que nos leva pra cultura de fandom e como é comum a gente pegar cada detalhe e construir um "ser humano" complexo. Fulaninho não é aquele cara de fundo unidimensional que faz piada - os meros detalhes geram histórias complexas. 

É meio que uma abordagem mais realista de histórias. É querer que cada personagem ser como um ser humano no mundo real - cada um vive as próprias batalhas, etc. E eu amo esse tipo de história. 

Porém. Existem histórias mais "metafóricas." Se esse curta que eu citei - eu não sei se ele é, mas poderia ser - fosse a história de uma mulher aprendendo a seguir o próprio espírito infantil de descoberta, que é contado visualmente através da personagem Adulta e da personagem Criança, não seria justo e nem faria sentido ter essa abordagem mais realista.

A gente, aqui fora assistindo, sabe ou sente que é isso que tá acontecendo. A Criança, por mais que mostrada como uma personagem "separada," é uma metáfora de uma parte da Adulta. É uma história sobre ela descobrindo a criança interna. Se você separa as duas personagens, você ia escrever uma fanfic do curta só com a protagonista e: ia dizer que é uma mulher séria, receosa, cansada e até perdida, que são as qualidades que ela mostra (em breves segundos!) ao chegar nesse planeta. Só que não é de fato quem essa personagem é, porque, afinal, ela segue a própria criança interna. Então a verdadeira personagem é: uma pessoa curiosa que mesmo cansada e com medo, decide ir mais longe pra explorar, e se divertir, nesse novo planeta.

Então a conclusão foi que se a gente tratar algumas histórias do mesmo jeito que a gente trata "série", ia estragar a mensagem principal. 

Eu acho que no geral a gente vive num momento que esse realismo é mais dominante nas histórias, é como a gente espera que as histórias sejam e o que a gente busca nelas. A gente até fica meio perdido quando vem uma história meio diferente, porque a gente não sabe explicar o que tá acontecendo, apesar de entender.

E é claro que não é uma regra binária de tipos de história. Up! Altas Aventuras é um exemplo de história com um velhinho e um garotinho escoteiro, que apesar de ter uma aplicação mais realista e eles sejam personagens separados, não dá pra negar que o garoto representa a vitalidade/sonho/inocência e até espírito explorador que o protagonista tinha perdido. 

Também tem um troço (uma teoria?) sobre histórias que os personagens "auxiliares" costumam representar "partes" diferentes do protagonista. Um exemplo é Harry Potter, que tem o Rony e a Hermione. 

Mas enfim, o que importa aqui foi eu reconhecendo as diferentes formas com que histórias são feitas e tentando entender isso melhor. Às vezes não é só porque a gente não tem uma caracterização e história profunda de cada personagem que isso seja ruim. Às vezes personagens estão ali só como metáforas e materialização de estados internos ou pensamentos de forma que fica mais fácil expressar em uma mídia visual. Se fosse um livro, ainda, a gente poderia ter a visão de "dentro" da cabeça da personagem com essas diferentes partes, mas num filme externalizar e mostrar visualmente como "outro" personagem, pode ser a forma de explicar essa relação da própria pessoa com partes de si mesmo. 

Agora vou lá assistir o resto do curta.

...e o resto do curta é lindo. Recomendo.  Não vou falar o que acontece. 


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