bifobia bissexualidade

O fetichismo e a invisibilização de personagens bissexuais nas séries

29.7.16Elilyan Andrade


Quase todo mundo acha que a visibilidade LGBT na mídia está em plena ascensão. De acordo com o último relatório do GLAAD na temporada de 2015-2016 na TV aberta nos EUA, apenas 35 personagens (4%) se identificam como gay, lésbica, bissexual ou transgênero. Observando os dados, é fácil perceber que houve avanço de personagens LGBT na mídias, mas não tão rápido com as comemorações.

De cabeça, confesso que poucos personagens bissexuais vêm à minha memória, e normalmente a lembrança não é digna de nota ou é um desserviço para os bissexuais, vide a personagem de Olivia Burke em Gossip Girl. Como já batemos na tecla inúmeras vezes aqui no Conversa Cult: representação é importante, pois ajuda a humanizar, relacionar e reconhecer minorias. A representação adequada de uma personagem bissexual em uma série ou filme pode ser essencial para ajudar aquele jovem que ainda não se sente forte o bastante para sair do armário. 

Existe todo um estigma em relação aos bissexuais, pois muitas vezes são vistos como indecisos e confusos por parte dos heterossexuais e alguns membros na comunidade gay e lésbica, e a mídia mainstream na grande maioria das vezes anda colaborando para a fetichização e invisibilidade de personagens bissexuais. A representação adequada de personagens bissexuais na mídia é essencial para a desestigmatização. 

Lembro de todo o buzz em torno da sexualidade da Dra. Remy Hadley (Thirteen) quando a personagem surgiu na quarta temporada da série M.D House, mas foi apenas na quinta que sua bissexualidade foi confirmada. Apesar da aparente aceitação da equipe durante todo o tempo, houve questionamentos e comentários bifóbicos, como quanto Kurtner questiona Foreman sobre ele se sentir seguro com Treze, porque ela é bi e poderia trocá-lo por uma mulher, fortalecendo o estereótipo de que a pessoa bissexual não se “contenta” com apenas um gênero e é mais propensa a trair. Acredito que o melhor momento que ajuda a desestigmatizar os bissexuais em M.D House foi quando em um jogo de verdade e desafio entre Thirteen e Wilson surgiu o seguinte diálogo:

Wilson: Você já fez sexo à três?
Treze: Não
Wilson: Sério?
Treze: Só por que eu sou bissexual?
Wilson: Bem… É.
Treze: Você sabe o que bissexual significa? Não é que nós fazemos sexo com duas pessoas ao mesmo tempo.

As respostas de Thirteen sobre sua sexualidade são excelentes, mas na contramão a personagem é hiper-sexualizada e colaborou, em parte, a perpetuar o estigma de que bissexuais ficam com todo mundo e não se apegam a ninguém. Por sinal, o esteriótipo de que “bissexuais ficam com qualquer um” também pode ser visto em The Good Wife, com Kalinda Sharma, e Bones, com Angela Montenegro

Infelizmente, mesmo em séries que se propõem a passar mensagens de aceitação a representação bissexual podem sofrer. Por exemplo, em Glee, Brittany se envolve em vários relacionamentos com Artie, Sam, Santana, etc. Britanny foi um grande passo para a comunidade LGBT, pois é uma personagem bi em destaque em uma das séries mais populares da história. Mas isso não impediu os roteiristas de perpetuar estereótipos negativos. Na quinta temporada, Santana (que anteriormente tinha namorado Brittany) comenta com Dani, sua nova namorada, que “Finalmente eu tenho uma namorada com quem não preciso me preocupar se vai correr atrás de pênis”, comentário que ajuda a perpetuar a ideia equivocada que bissexuais são promíscuos e infiéis.


Outra série super inclusiva, mas que peca na hora de dar visibilidade à bissexualidade, é Orange Is The New Black. Confesso que só assisti alguns episódios da primeira temporada, mas lembro que a Piper Chapman nunca se assumiu como bissexual, ela chegou até a ser rotulada como “ex-lésbica” e “hétero” quando claramente ela é bi. É muito estranho ver que uma série que é superinclusiva e elogiada por dar voz às minorias pecar tão feio em relação a algo tão simples, principalmente se tivermos em mente que a série é baseada na história de vida de Piper Kerman, que é uma mulher bissexual assumida.

A invisibilidade da bissexualidade é tão grande que na ficção homens bissexuais são mais difíceis de encontrar que o pote de ouro no final do arco-íris. Assim como na vida real, o ideal de masculinidade oprime os homens bissexuais também na ficção. Nos livros de Gossip Girl,  Chuck Bass claramente é um homem bi, mas na série sua sexualidade é praticamente apagada, rendendo apenas uma armação de Blair e um comentário de Chuck. Já em Dance Academy, Sammy Lieberman, após ter namorado Abigail, se vê atraído por Christian, o que o deixa confuso e se questionando se seria ou não gay. O fato de Sammy questionar se é ou não gay dá a entender que só porque acontece de um homem se interessar por alguém do mesmo gênero automaticamente ele é gay, o que não é verdade. Observando a trajetória de Sammy em todas as temporadas de Dance Academy fica claro que ele é bissexual.


Outra forma comum que contribui com a invisibilidade de homens bi nas séries é a justificativa dos roteiristas de que tudo não passa de libertinagem. Por exemplo, Oberyn Martell (Game of Thrones), Dorian Gray (Penny Dreadful) e Frank Underwood (House of Cards) se envolvem igualmente com homens e mulheres, mas tudo não passa de desejos justificados por um apetite sexual insaciável. Por que Oberyn, Dorian e Frank não podem ser bi? 

Confesso que antes de ter recebido o tema no CCSecreto nunca tinha parado para pensar sobre a representação bi. Ao pesquisar, me deparei com alguns bons exemplos, como ainda Magnus Bane (Shadowhunters), James Flint (Black Sails) e Darryl Whitefeather (Crazy Ex-Girlfriend): todos são personagens que ajudam na aceitação e entendimento dos bissexuais. Ainda não é tempo de soltar fogos, pois não é fácil ser bi na TV. 

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4 comentários

  1. Gostei muito do texto, fico feliz o tema que eu te dei rendeu um texto pra fazer pensar.

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  2. Adorei o texto, mas queria comentar sobre a ideia do Magnus. Adoro ele, porém ele também esta incluído na libertinagem. Cara, ele é dono de uma Boate, isso é muito feio de se ver em um personagem bi.

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    Respostas
    1. Me senti bem representado pelo Magnus, como homem bi. Não preciso esconder meus desejos sexuais pra me fazer respeitar. Assim como qualquer outra pessoa ele teve seu coração partido (por uma mulher) e se fechou para o amor por um tempo. E não importa quantos prazeres ele possa encontrar em uma vida de libertinagem ele se apaixonou (por um homem) e está disposto a passar por tudo de novo.

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  3. Já disse que amo esse blog?
    Bones <3 House of Cards <3
    Tema importantíssimo e debatido com clareza e coerência, parabéns!

    www.booksever.com.br

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