análise Black Sails

Iniciação: Black Sails - a série de piratas que não é só mais uma história de piratas

6.2.16Dana Martins


Fui assistir Black Sails. Era a semana que a primeira temporada entrou no Netflix, e a imagem da capa é só um cenário escuro com um homem competindo com uma caveira pra chegar na bandeira no alto do barco. Ok, piratas. Uma série que eu escuto falar pouco. Eu só sei mesmo que tem piratas e um ator que vai aparecer na s3 de The 100 (esse acima, o Zach McGowan). Eu fiquei levemente na dúvida, porque aaargh toda aquela coisa de série histórica machista. mas: PIRATAS. 

Eu sozinha pensando enquanto arrumava as coisas na sala pra ver "Essa deve ser a primeira série sem coisa LGBT+ que eu assisto em muito tempo".

Aí comecei a assistir.

Não é que eu só assista série com coisas LGBT+, é que todas que eu assisto acabam tendo. Aí eu fiquei me perguntando se era eu que atraía isso ou se as pessoas estão se transformando em seres humanos decentes mesmo.

Black Sails começa no mar, com barcos cheios de piratas (homens) e lutas. Sabe, o que você espera assistindo uma série sobre piratas. E aí sempre chegam naquele lugar no meio do nada onde eles param pra fazer todo tipo de coisa ilegal. Ou seja: ir no bordel. E a série não decepciona nesse imaginário - logo que os personagens desce do barco tem uma mulher pra oferecer o corpo. 

E aí que as coisas mudam. 

acho que nunca ouvi tanto fuck na minha vida

O que eu pensei que seria piratas no mar lutando, se transformou mais em um "Jogo de Intrigas. Edição: Piratas", o que é algo bom. A história se passa em Nassau, que hoje em dia faz parte de Bahamas que fica perto da costa dos EUA. Enfim, é tipo uma "ilha" menor que os piratas dominavam na época. 

Fui até no Wikipédia de Nassau e:

"Até 1713, as ilhas escassamente povoadas das Bahamas haviam se tornado num paraíso pirata para chefes piratas como Thomas Barrow e Benjamin Hornigold. Eles proclamaram Nassau uma república pirata, estabelecendo-se como "governadores". A este grupo outros se juntaram como Charles Vane, Calico Jack Rackham e o infame Edward Teach, conhecido como "Barba Negra", junto com mulheres piratas, como a Anne Bonny."

Charles Vane, Jack Rackham, Anne Bonny e o Benjamin Hornigold são alguns dos personagens da série, que também parece ser uma espécie de prequel pra o livro A Ilha do Tesouro, do Robert Louis Stevenson. (ok, eu descobri que esse livro foi transformado em uma minissérie que teve o presidente Snow e o Frodo no elenco HUAHUAHUAH) 

eu assistiria se fossem só esses 3


Mas nada disso realmente importa pra você assistir a série, são só curiosidades.

Então Nassau é esse lugar de ninguém que fica no meio da rota entre a Europa e as Américas (hey, colonização!). 

Os negócios ali são organizados pela Eleanor Guthrie. Ou melhor, pelo pai dela, o que ao longo da temporada vai dar uns conflitos. 

No meio disso, o Capitão Flint está em busca de um navio espanhol com algum tesouro, enquanto John Silver por acaso rouba justamente a página do itinerário que ele precisa. De quebra, Charles Vane quer superar o Capitão Flint como o melhor pirata, e não tem muitos escrupulos quanto a como fazer isso.

Isso é só o começo, gente. 

Ainda rola muita coisa aí no meio, mas eu não quero dar spoilers, então eu vou passar sobre o que eu gostei.



Minha impressão depois de terminar Black Sails é que todos os personagens são um pouco malucos. Em meros 8 episódios todos eles precisam sair da própria zona de conforto e lidar com as próprias crenças. E de certo modo todos eles são pessoas que estão dispostas a ir longe pra conseguir o que querem. Talvez até por o tema ser Pirata. Eles já são pessoas fora do "padrão", são pessoas que vivem na área cinzenta das leis, e ganham a vida fazendo coisas que pessoas comuns têm medo demais pra fazer. 

Tem a Eleanor Guthrie, que pra mim é muito interessante. Loirinha, olhos azuis, a típica "donzela de história colonial", mas que acaba sendo filha de um cara desonrado pela própria família que é mandado pra tratar dos negócios ilegais no meio do nada. Um cara que entre lucro e a filha, escolheria o primeiro. Então Eleanor se transforma em qualquer coisa, menos uma donzela. Ela cresce em uma ilha dominada por piratas, entre pensões com homens bêbados e bordéis, e assume dali os negócios do pai. Eleanor, por "profissão", lida diariamente com criminosos sujos e oficiais corruptos. 



Pra mim, é uma personagem interessante. Nessa primeira temporada ela lida bastante com o fato de não ser dona do negócio, mas filha do dono, e apesar de já a conhecermos num período que ela sabe se virar sozinha, apenas vou dizer é uma transição de princesa para rainha. Sério, eu gosto muito de ver como eles desenvolvem a vulnerabilidade da personagem, mesmo quando ela tá sendo a perfeita Rainha de Gelo. Enquanto eu assistia até me lembrava um pouco da Lexa em The 100, como se a Eleanor fosse uma versão dela assim que assumiu o poder, porque no fim a Eleanor se aproxima muito da Lexa que conhecemos, só falta dizer #loveisweakess. 

Ah, e eu disse que a Eleanor é bissexual ou pansexual? Pois é. 

Black Sails tem uma porção de cenas de sexo explícitas (não é pornô, mas é o explícito Estilo Netflix) e nem é romantizado. Também não são cenas descartáveis, porque todas são partes da narrativa. E não tem a "censura LGBT+" até agora, que é tipo quando vai mostrar sexo entre pessoas de gênero diferente mostra tudo, e aí quando é pessoas do mesmo gênero é um selinho ou algo mais implícito. É tudo o mesmo tratamento. 

Outra coisa que eu gosto é que, em vez de batalhas e YAY SOMOS PIRATAS VAMOS SAQUEAR (que eu esperava), é muito mais sobre a dinâmica pra ter essa vida de pirata. Como muitos decidiram ser piratas justamente pra fazer justiça, pra não ter que responder ao reinados ditatoriais da Europa, e viver em um sistema mais de igualdade. E os piratas levam isso muito a sério. 

Capitão Flint. E eu queria dar  uns spoilers, mas


Percebi que eu não sei explicar o que eu quero dizer. É só que eles passam metade da série tentando se organizar pra fazer uma viagem. Conseguir itinerário, "patrocínio" pra conseguir as coisas, tentando conseguir as coisas, lidando com intrigas internas de gente tentando tomar o lugar do capitão e gente mentindo, enquanto isso enfrentando outros piratas e problemas pessoais. 

Até mesmo quando eles sobem no barco E AGORA VAI TER A LUTA! O foco não é na porradaria. É na relação frágil entre os personagens (afinal, tudo funciona na camaradagem, mas se você não confia direito na pessoa...?). É na estratégia de como invadir o outro barco. 

Quanto mais eu penso, mais detalhes legais sobre Black Sails eu encontro.

QUESTÃO DE REPRESENTATIVIDADE

Isso é um ponto importante pra mim no que eu assisto, então sempre vou deixar um tópico exclusivo pra isso. Eu falei da Eleanor, mas representatividade não se constrói com uma personagem (apesar de pensarem que é assim. "vamos colocar uma mulher aqui e todos os problemas estão resolvidos!!! rsrsrs"). Black Sails me dá um mindfuck. É uma série histórica, sobre um período ruim se você não é homem e branco, e nem segura a mão em mostrar as mulheres prostitutas, estupro, racismo. HELLO, É A ÉPOCA DA ESCRAVIDÃO.

Mas eles fazem algumas coisas muito bem. Eu não lembro nem se o estupro é explícito. Mas como acontece mais de uma vez, eu sei que nem todos nós vemos em cena. (hey, Game of Thrones! olha só como você não precisa mostrar e ainda assim tratar o assunto) Aliás, a série dá bastante espaço pra essa questão específica. Isso acontece com uma mulher prostituta e eles mostram a diferença de quando ela ESCOLHE fazer e de quando ela é FORÇADA A FAZER. O que por si só é algo muito bom, porque existe a ideia errada de que só porque a mulher trabalha com sexo justifica qualquer um chegar e estuprar. Nope.


Depois que essa personagem é estuprada, outro personagem meio que cria uma lei pra castigar as pessoas que fizeram isso e, mais tarde, a pessoa é obrigada a desfazer essa lei. O maior conflito dessa cena é que "se eu tirar, vai parecer que o que fizeram é ok E NÃO É." 

Ainda tem toda uma linha da história em que mulheres que nem gostam uma da outra se ajudam pra salvar outra mulher. Acontece quase um:

- Obrigada! 
- Não, eu não fiz isso por você, eu não gosto de você, eu nem concordo com a maneira que você vive a sua vida, mas você também é mulher e eu não posso deixar isso acontecer com outra mulher

Acho que eles leram a definição de "sororidade" e escreveram a série.

Aliás, até as próprias mulheres prostitutas, elas constantemente são mostradas no controle da situação. É colocado de um modo até que se qualquer uma daquelas mulheres disser "ok, chega, não quero mais trabalhar nisso", elas podem. 

Ou seja, a série passa por assuntos sensíveis, eu não sei dizer se eles fazem de forma perfeita, mas pareceu uma representação libertadora. 

(e a série tem 4 mulheres importantes, pra... muitos homens com relevância. ainda não sei como lidar com isso)

Sobre diversidade étnica: tem 2 pessoas de relevância que não são brancas, mas nenhum deles está no mesmo nível dos personagens brancos e o papel de um é de "ex-escravo" e do outro é prostituta, ou seja. Acho que podia melhorar. De positivo: tem uma linha narrativa com um navio cheio de escravos, onde é interessante que mostra "é, Nassau é um lugar de liberdade e tal, mas não pra vocês. não tenha tanta esperança de que lá vai ser muito melhor do que as colônias pra onde vocês estão sendo levados". Além disso, na tripulação dos piratas você vê pessoas com descendências diferentes. Mas só vê mesmo, porque ter voz só gente branca. A resposta é: representatividade melhor do que o normal, mas ainda um longo caminho pra ir. 

LGBT+ acho que não preciso nem falar. E até onde eu sei só melhora nas próximas temporadas. 

Jesus. Pensei que não ia ter nada pra falar e falei demais. Agora vou lá assistir a S2. 


Esse post tá demorando tanto a sair que eu tenho algumas coisas a acrescentar:
1- Encontrei uma pergunta na internet que era "É aventura de piratas ou só questões políticas?", porque tipo PIRATAS YEY eu fui esperando muita ação, luta e coisa típica de pirata, mas a série é realmente mais os paranauê político. Tem lutas, invasões em barco, mas a maior parte é conflito interno mesmo.
2- Já terminei a segunda temporada, e achei mais fraca que a primeira. Agora eu diria que Black Sails é a minha série-conforto - aquela que eu assisto no meio da semana quando quero me distrair sem ter que pensar muito. E às vezes ainda tenho o prazer de me surpreender com acontecimentos bombásticos.
3- Em compensação, Max, Jack e Anne estão muito melhores na S2.
4- Eu já parei com a negação e o principal motivo de eu ter assistido Black Sails (fora o fácil acesso no Netflix), foi ter o ator que agora tá na 3ª temporada de The 100. 

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9 comentários

  1. Eu olhei a foto do post e fiquei me perguntando o quê que príncipe gostoso da Azgeda tá fazendo em um post sobre Black Sails???

    Já me falaram muito dessa série, coloquei na minha lista da Netflix, mas ainda não assisti.

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    1. HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHA O PRÍNCIPE GOSTOSO DA AZGEDA. SIM. E ELE TÁ MARAVILHOSO EM BLACK SAILS TAMBÉM

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  2. Alguém já tinha comentado sobre essa série (acho que foi aqui mesmo no CC?) e eu fiquei bem interessada, mas com seu post o interesse triplicou. E já tem duas temporadas!!!

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    1. deve ter sido eu mesma, acho que comenetei??? enfim. e a terceira tá passando agora, mas vou esperar terminar pra assistir

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  3. Só vi o primeiro episódio e nem deu pra terminar, mas não gosto muito do estilo de série com nudez so da mulher e nenhum homem peladinho, isso me broxa bastante e acabo perdendo a vontade de ver. A nudez masculina aparece em algum momento ou é so a feminina até o fim da vida? E pra um primeiro episodio achei que eram cenas de sexo demais, isso tambem continua ate o fim ou tem mais serie em si?

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    1. tem homem pelado também. mas se você tem problema com nudez e sexo, não indico. não é o centro da série, mas continua tendo

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  4. Ainda não assisti a terceira série, (alguém sabe quando no netflix ? ) embora já tenha assistido as 4 primeiras (starz) em um outro site.

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  5. ótima série, das melhores que tenho visto ultimamente!

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  6. Nunca a época da pirataria foi tão bem explorada. Uma série épica sem dúvidas.

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