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Eu estou bem

16.12.15Diego Matioli


Eu tenho depressão, mas eu estou bem.

Estou tomando o medicamente correto com o acompanhamento médico apropriado e tendo todo o apoio possível e imaginável. Eu queria muito escrever como é estar na depressão, como é o olho do furacão, e eu queria que o texto fosse só sobre isso, sem nenhuma intervenção amenizadora ou final feliz, porque eu acredito que existem muitas pessoas passando por essa situação que podem se identificar e procurar ajuda, e outras tantas que nunca passaram, mas poderiam ser mais sensíveis ao assunto. De toda a forma, eu só tive as melhores intenções com o texto, mas eu acho importante deixar claro: eu estou bem. Eu não escreveria sobre esse assunto aqui se eu não estivesse me sentindo pronto para tal.

Outra coisa que eu preciso dizer é que o texto não representa um décimo do que eu passei. E o poema ao final dele tampouco. E eu não estou querendo me fazer de vítima aqui nem nada assim. Eu quero dizer que eu já tinha lido sobre depressão inúmeras vezes, e nada disso me preparou para sentir ela na pele. O próprio poema da Sabrina tomou todo um novo sentido para mim. Depressão é uma experiência extremamente emocional, um emaranhado confuso de coisas dentro de você que eu acredito que nem mesmo o mais hábil mestre conseguiria desenrolar e tricotar perfeitamente em um texto racional. Ainda assim, tentar era importante para mim.



Depressão pode ser uma erva daninha, mas não dá para simplesmente podar ela. Eu tive de admitir que eu precisava de ajuda e ir atrás dela. Hoje eu consigo ver que o problema já me acompanhava há muito mais tempo do que eu imaginava, e que tudo bem. Eu estou melhor e é isso que importa. Eu também tive de admitir que um desajuste químico do meu corpo não é sinônimo de fraqueza ou fracasso. Tomar antidepressivo não é uma derrota, não quer dizer que eu não sei lidar com meus problemas nem nada assim. É simplesmente uma pequena deficiência do meu corpo, que pode ser temporária ou permanente (só o tempo dirá).

O último mês foi muito importante para mim, porque eu mandei tudo para o alto e fui tentar ser feliz. E eu tive umas revelações bem importantes no processo. Primeiro que eu percebi que fora dos mil projetos que eu tento executar eu tenho uma excelente vida. Uma família ótima, um sobrinho maravilhoso, um bom emprego que eu amo e que no qual eu sou muito bom! Se eu nunca mais escrevesse para blog nenhum, nem tentasse desenvolver nenhum livro ou outra ideia qualquer, eu teria uma vida completamente plena e tranquila. E isso é algo bom de se saber, porque por tanto tempo eu me qualifiquei com base na minha produção criativa sem reparar que minha vida é muito mais que isso. Minha arte tem de vir para acrescentar na felicidade, e não para consumir ela.



Mas eu também sei que eu QUERO fazer coisas diferentes e produzir textos e postar coisas que eu acho legais. Eu amo fazer isso e amo o ConversaCult, e isso não mudou. Só que eu tenho de redescobrir como lidar com essa parte da minha vida, e essa é uma jornada que demanda tempo e paciência. Eu sempre compartilhei por aqui minha relação com o processo criativo e a escrita, então não poderia ser diferente agora. Isso não sou eu me justificando por produzir mais ou menos, mas eu tentando entender porque é importante mudar a forma como eu produzo.

E dizendo que eu estou bem.

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4 comentários

  1. "Depressão é uma experiência extremamente emocional, um emaranhado confuso de coisas dentro de você que eu acredito que nem mesmo o mais hábil mestre conseguiria desenrolar e tricotar perfeitamente em um texto racional."

    Acho que é bem isso mesmo. Não creio que exista uma definição exata válida pra depressão. Muita coisa é dita, escrita e especulada sobre o assunto, mas só quem sentiu mesmo, quem esteve no meio desse emaranhado, pode realmente falar com propriedade sobre isso.
    Já tive fases quase intransponíveis.
    Uma vez vi um filme sobre uma extraterrestre que veio pra terra e toda vez que ela se sentia deslocada ou com saudade de casa entrava dentro da pia com água e virava uma bolha. Era um filme estranho, confesso rs, mas costumava sentir vontade de ser uma bolha quando entrava em crise. Foi a definição mais próxima que encontrei na época, porque tipo, eu tinha vontade de não sentir. Não era como morrer, nada disso. Só ser uma bolha fechada, compactada, leve.
    É extremamente confuso, exatamente porque isso é algo muito pessoal.
    Enfim. Fico feliz que esteja bem.

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    1. Essa analogia da bolha é muito boa mesmo!

      Eu ficava assistindo tv o dia todo, mas só programas bobos e superficiais. Coisas que não me faziam pensar nem sentir nada. Era o mais próximo que eu conseguia chegar dessa anestesia que você está descrevendo. Era como se qualquer coisa mais complexa ou mais triste me machucasse, muito! É algo insano.

      Interessante ver como experiencias se cruzam! Muito obrigado pelo comentário, e fico feliz que tenha achado o texto representativo da experiência.

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  2. Eu não sei muito sobre o assunto, mas passei por fases tão difíceis de uma tristeza tão profunda que acredito ter quase chegado ao patamar da depressão, mas EU atribuo o que aconteceu COMIGO dessa forma: Eu cedia muito a cobranças exteriores, de tal forma que isso virava pessoal, eu tinha como meta atingir as cobranças alheias, e fazia tudo isso sem perceber que não eram os meus desejos.
    Não foi fácil, ainda mais no período de extremo cansaço mental, onde trabalhava e estudava frenéticamente, adoeci fisicamente, tive uma complicação em um nervo, devido o estressa, as cobranças e a ansiedade.
    Cara, se eu tivesse tido a oportunidade de passar por um acompanhamento psicológico eu teria lidado muito melhor com o que eu estava vivendo.

    Hoje olho pra trás e fico feliz por ver que era uma fase, e que minhas novas iniciativas me trouxeram novamente pro caminho da felicidade. Busquei por mim mesmo? Busquei, mas não seria nada sem os meus amigos.

    Paz e amor!

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    Respostas
    1. Eu consigo identificar elementos que possam ter acarretado meus sintomas, mas eu fui procurar ajuda quando, mesmo depois de ter cortado pessoas e situações toxicas da minha vida, eu continuava piorando.

      O complicado é bem isso. A gente quer acreditar que a gente está mal por um motivo especifico, mas nem sempre é tão simples. Quando eu finalmente decidi ir ao psiquiatra eu praticamente ficava na cama o dia todo, porque ficar assistindo tv era o mais próximo de não sentir nada e não pensar em nada que eu consegui arrumar. Mas não tinha mais nada de errado na minha vida, eu tinha já saido do emprego ruim e tinha lidado com as pessoas que me faziam mal. Minha vida estava perfeitamente bem, e eu tinha acabado de fazer uma viagem incrível e encontrar amigos queridíssimos. Então eu tive de reconhecer que isso era um problema mais sério, que eu realmente precisava de ajuda. E talvez eu estivesse passando por isso há muito mais tempo, e não estivesse percebendo por acreditar que o problema era o emprego ou a pessoa, mas não era.

      O complicado é que depressão é usado para falar de uma fase ruim, assim como para falar de uma doença, que pode ser crônica ou não. São muitas variáveis para enganar a gente. Eu sempre sou favorável ao acompanhamento psicológico, mas eu fico feliz de saber que você está bem, Allan. Espero que você não passe por isso de novo.

      Obrigado pelo comentário!

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