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Depressão pós-moderna

30.7.14Igraínne


Hoje em dia, mais da metade das pessoas têm depressão. Meus melhores amigos têm depressão. Minha família está infestada com depressão. Eu tenho depressão. Todo mundo que eu conheço teve/tem depressão. Caixas de rivotril nos armários, diazepam como overdose da Era, trabalhos acadêmicos e defesas de tese de mestrado a respeito de como os universitários apresentaram uma taxa de depressão preocupante no ano passado.

E você, sabe o que é depressão? Já ajudou um amigo que estava sofrendo desse novo mau do século? Ou falou pra ele que ele estava fazendo show por nada? Que ele não se esforçava? Porque, sim, minha gente, eu ouvi isso de pessoas que eu considerava muito no passado. Eu dizia que eram meus amigos.

E agora é hora de você ver a coisa de outro ângulo. Trazemos relatos, trazemos a verdade, trazemos o que você considerou ser uma crise qualquer. Não estamos aqui para falar dos números, isso você encontra em matérias na internet. Estamos aqui para você poder olhar como se estivesse NO NOSSO LUGAR.

*observação: todos os nomes foram trocados para a preservação da imagem dos entrevistados. 

"Isso é o quanto a sua vida é frágil"

O que é depressão para você?

Carla: Bem... Depressão, para mim, é como um buraco negro. Parece que suga todas as suas energias e não te deixa ter esperanças acerca do futuro. Você fica envolto numa aura de pessimismo, de "nada dá certo, pra que tentar?". Tudo o que poderia trazer prazer pra você torna -se chato, sem graça... concentração? Isso não existe. Dê um trabalho para um depressivo e espere deitado ele fazer.
Acho também que alguns depressivos se agarram a alguma ideia que ainda lhes traz esperanças... e pra mim é meio obsessivo, sabe? Acabam se tornando dependentes de alguma coisa.. e se essa coisa vai embora, pronto... aí mesmo que tudo vai por água abaixo.

Maria: Essa é a pergunta mais difícil, pois eu não sei definir exatamente, [não sei] como classificar a depressão. Parece que é algo que vem seguindo com minha vida conforme o tempo vai passando, mas eu não sei nominar.

Ângelo: É uma dor psicossomática, uma dor que não pode ser medicamentada ou mesmo tem uma cura plausível. A dor em si, é uma resposta que nossa medula espinhal envia ao cérebro avisando que algo está errado em nosso corpo. No meu caso, sinto variados tipos de dores, sendo elas: Nociceptiva, Neuropática e a Psicossomática. Nociceptiva é a mais comum: quando encostamos nosso braço em uma brasa, por exemplo. A dor neuropática não é tão comum. Ela ocorre em pessoas que tiveram sua medula espinhal comprimida, o que chamamos de lesão medular. Os fios medulares ficam "grudados" devido ao trauma, e resumidamente, ocorre um curto circuíto entre as informações de dores do corpo; faz com essas pessoas - eu - sintam dor sem que tenha um agente externo ocasionando a mesma. Essas dores variam, podendo trazer sensações de queimaduras (o que eu já tive, e muito) (...), choques (que eu não tive, ufa!) e sensações de formigamento (essa eu sinto, é como se estivesse com as pernas dentro de um formigueiro). A dor psicossomática, por fim, é difícil de se detectar. Ela ocorre na psique humana e somente lá, mas ela pode acarretar muitos problemas detectáveis no corpo em consequência: complicações gástricas são mais comuns, mas podem ser mais grave, causando uma complicação cardiovascular, entre outras coisas.

2) Durante as suas crises depressivas, você tem ideias que podem ocasionar consequências graves?
Carla: Sim! Com certeza! Vontade de sumir! De largar tudo, seja trabalho, faculdade ou qualquer outra coisa. Isso quando não o faço mesmo. Deixei muitos projetos para trás por causa da depressão. Costumo dizer que, aos meus 22 anos, não tenho nada de concreto ainda devido a ela. E, sim... vontade de morrer... Na verdade já tentei me matar e que bom que não deu certo. Depois do que fiz, fiquei muito pensativa sobre tudo isso e resolvi procurar ajuda. Hoje eu não tenho tantos pensamentos suicidas. Só penso em largar tudo mesmo, não em morrer.

Maria: Já tentei me matar, e de certa forma  queria chamar a atenção das pessoas para que elas vissem como eu estava sofrendo - e [até] as ameaçava assim. Mas ao mesmo tempo eu desejava a paz que não tinha e, por isso, tentava me matar. É meio estranho pensar nisso hoje, mas era o alivio que eu achava que ia conseguir, eu me sentia sozinha e queria acabar com sofrimento, tomei remédios, tentei me jogar do quarto andar do prédio onde eu morava. Juntava com a ansiedade e tudo ficava ainda mais complicado. No fim, nada tinha muito sentido para mim, ficava trancada por horas deitada enquanto não aguentava mais, circulava feito doida pela casa. Era uma época muito complicada, pois eu não sabia lidar com a depressão.

Ângelo: Em outubro de 2013, havia perdido minha namorada por motivos que até hoje desconheço, ela estava grávida. Me afundei em depressão sem perceber,  passei a tratar a tudo que não me interessava e a todos com indiferença. A bola de neve foi ficando cada vez maior, eu deveria ter procurado profissionais para tratar, mas não o fiz. Iniciei uma busca incansável no sistema, para me sentir agradecido. Saía de um emprego, entrava em outro e foi ficando tudo muito banal. E como já devem ter deduzido na primeira pergunta, fui "parar" numa cadeira de rodas, após me atirar de altos 12 metros de um parapeito. Fiquei paraplégico. Sim, é ruim, mas em outras circunstâncias em nem estaria escrevendo isso, ou mesmo vivo. Eu tive muita sorte.

3) Se toma remédios, tem reações?
Carla: Muitas reações: tomei sertralina e na primeira vez e fui parar no hospital. Agora estou com outro componente e as reações são bem mais brandas, mas mesmo assim acontecem. No começo, havia muita dor de cabeça, vômito e alguns crises de ansiedade... com o tempo passa... e então, depois, em mim só ficou o sono, o sono, o sono e o sono. E a visão fica, também, um pouco turva e às vezes tenho um pouco de enjoo.

Maria: Eu nunca cheguei a tomar remédios, nem quando passava pela psicóloga. Ela tentou me manter sem eles durante os dois anos.

Ângelo: Sim, eu tomo o Prozac (fluoxetina) e sinceramente não vejo reação alguma partindo dele.  

4) Como é a sua relação com seus amigos?
Carla: Sou sortuda, pois me considero uma pessoa cheia de amigos! Tenho uma ótima relação e são raras as vezes em que me sinto sozinha de verdade. Eles compreendem minha situação e tentam me ajudar do jeito deles... alguns zombam, e não ligam muito, mas eu também não me importo. Apesar disso, na maior parte do tempo tenho uma boa relação.

Maria: Eles sempre vinham na minha casa me animar, mas isto era meio superficial. Por algumas vezes passei pelas crises sozinha sem nenhuma visita e acabei me afastando desse tipo de amizade, com algumas exceções. Hoje meus amigos lidam bem mais calmamente com isso, mesmo que algumas vezes eu perca o controle ou fique muito mal. Eles me escutam sem julgar. Tenho que agradecer a paciência deles. 

Ângelo: Meus amigos se resumem entre os que me conhecem hoje, e os outros. É boa.


5) Você acha que existe um culpado?
Carla: Olhe, acho sim. Acho que o mundo em que vivemos, como um todo, é o grande culpado. Claro que reconheço que tenho atitudes melancólicas e desde que o mundo é mundo existe a depressão. Mas acho que hoje em dia temos uma série de fatores que fazem essa doença se tornar uma epidemia. No entanto, no meu caso, acho que a grande causadora é um tanto subjetiva. Considero a morte a culpada por tudo isso. Ela é assunto recorrente em meus pensamentos. Desde criança tenho uma neurose com morte. Ela me machuca, me instiga, me tira as esperanças...

Maria: Antes eu achava que era eu mesma e me punia por isto, o que tornava tudo ainda mais doloroso. Mas agora aprendi certas tolerâncias que me fazem "driblar" e seguir tudo sem precisar culpar nada nem ninguém. E isso acontece de forma bem limpa: consigo lidar de maneira bem facilmente e com a cabeça no lugar.

Ângelo: Eu mesmo.

6) Você conhece o Rivotril? Se sim, já tomou? A maior parte da população depressiva é viciada nesse remédio, e ele custa apenas R$ 5. O que você acha?
Carla: Ahahahah, óbvio que conheço o amigo rivotril. E já usei muito e de vez em quando uso. Como uma depressiva um tanto careta, ter um rivotril em casa e poder ficar chapadona sem culpa  é o máximo. Eu tenho essa sensação. Quando tudo está uma bosta e eu não posso sair por aqui enchendo a cara, me drogando e fazendo coisas altamente inconsequentes, eu vou lá e tomo 2mg de clonazepam e tudo fica mais leve... as pernas ficam bambas, o riso solto, o peito aberto... Agora reconheço que o uso quase como droga. Quase não, eu o uso como droga. E sei também dos seus efeitos a longo prazo e da dependência que ele me traz. É uma faca de dois gumes.

Maria: Eu já ouvi falar, mas nunca tomei.

Ângelo: Sim, eu conheço, mas nunca tomei. Não fico surpreso em saber que a maior parte da população é viciada neste remédio, afinal, em qual que ela não é?! O mercado de psicotrópicos serve exatamente para isso, viciar os pacientes. Tão logo estarei excluindo o anti-depressivo que tomo citado acima, pois acho desnecessário o uso destes remédios, o ser humano é capaz de se auto-curar. 

7) O que você pensa ser necessário para que a sua depressão chegue ao fim?
Carla: Nossa, que pergunta! Acho que parar de pensar na morte e viver um dia de cada vez, sem tanta ansiedade e pessimismo e sem tanta cobrança em cima de mim. Preciso ser resiliente e não uma criança mimada que chora por tudo o que a vida tira. Entender que a vida tem seu valor independe de dias bons ou ruins.... Esses dias ruins vão sempre acontecer, mesmo que você tenha uma visão "perfeita". Acho que aprender a conviver com a dor e encontrar beleza em tudo seria uma chave pra passar e superar a minha depressão. E talvez não estratificar tanto minha vida... deixar as coisas acontecerem do jeito que tiverem de ser e não pensar como uma general perversa achando que tudo tem que ser do meu modo. E... precisar menos das pessoas: não me ver livre delas, não é isso, mas sim precisar menos delas - saber aproveitar minha própria companhia.



Maria: Não acho que tenha um fim, mas quando as coisas pioram eu, pelo menos, tento desviar a atenção de tudo aquilo que me faz mal. Já cortei laços e me privei de algumas coisas, por exemplo. Ainda que não faça muito efeito de inicio, eu tento tirar algo bom das pequenas coisas que acontecem. A depressão pode vir, em alguma hora, com força total e não desejo realmente tomar outra decisão drástica. Só preciso ter algo alguém ou algo para me apoiar, para que eu possa me manter firme.

Ângelo: Antes de listar alguns afazeres, vou dizer algo além de religião. Deus é por nós, não existem milagres, mas a sua fé nele depositada pode mover montanhas. Minha religião é o amor, somente esta, assim como Deus nos ensinou. Ele disse: Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Se apegue em Deus, ore, e sua vida irá melhorar muito. Vamos lá, em primeiro lugar, tenha pensamentos positivos (...) Em segundo lugar, arrume uma ocupação para você, isso amenizará sua dor e provavelmente sentirá algum prazer por ter realizado o trabalho (...). Você é o senhor do seu corpo e da sua mente. Se nada disso funcionar, procure um profissional para tratar a sua psique, converse, abra o jogo, só não aconselho aceitar os remédios que irão te receitar, a longo prazo essas "coisinhas" podem te deixar bem conturbado. E se ainda assim não resolver as coisas, compre um gato e seja feliz. (:


E você? O que pensa a respeito da depressão?


- Igraínne M. 

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1 comentários

  1. Parabéns pelo post! Esse é um assunto que a gente vê todos os dias, mas que muitas vezes não sabemos lidar muito bem com ele. Eu tenho uma certa tendência à depressão e tenho certeza que há alguns anos eu tinha mesmo esse mal; nunca fui num psiquiatra, mas já tentei psicólogos (não deu muito resultado talvez porque não me identifiquei com a linha, não sei) e tomo sertralina (receitado pela minha endocrinologista), mas bem pouco, 1/2 comprimido, o que num faz muita diferença (estou em fase de "desmame"). Sinto que estava melhor tomando 1 comprimido inteiro, o que ainda é pouco, digamos assim, mas enfim.
    Gostei bastante do post. =)

    Beijos, Livro Lab

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