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Porque as pessoas deveriam gostar mais de histórias tristes

27.4.14Diego Matioli



O ser humano aprende por experiência. Não só a dele, mas a dos outros. Vi meu irmão se meter em dívidas aos dezoito e tomo cuidado para não cometer os mesmos erros que ele até hoje. Aprendi com o que ele passou e com seu sofrimento na época. Essa é a questão com a tristeza: ela só é ruim por que você dá esse significado negativo a ela. A tristeza pode ser muito boa, te ensinar coisas incríveis e te tornar uma pessoa melhor, mas ninguém parece lembrar disso na hora de escolher o próximo filme para ver ou livro para ler.

Que tal resignificar o que é tristeza para você?

Se olhar do ângulo certo, vai perceber que a tristeza fez quem você é. Eu sofria Bullying na infância e hoje sou independente, justo e respeitoso. Faço de meta pessoal não julgar os outros como fizeram comigo. A carência emocional daquela época me fez criar história para suprir a falta de amizades, histórias que hoje escrevo com a intenção de ser publicado. Sem ninguém com quem sair, comecei a ler e hoje isso é mais que hobbie, é profissão. Em pouco menos de cinco anos vi três parentes próximos morrerem (avô, avó e pai), e aprendi mais sobre o valor de uma vida e a importância de respeitar as batalhas individuais dos outros através disso do que em todos os outros anos da minha vida somados.

quer aprender sobre o luto? Que tal uma série (premiadíssima) que inicia todo o episódio com uma morte?

Não dá para mudar se uma experiência é triste ou feliz, mas nós é que decidimos como vamos aproveita-la. Eu não posso trazer meu pai de volta, mas posso tirar o máximo de sua morte para me transformar em uma pessoa melhor. Considero isso mais saudável do que gerar um peso inenarrável para a minha perda, não falar sobre ela e fugir do sofrimento que me acarreta. Quando você aprende com o sofrimento, ele ganha um propósito e isso o torna suportável. Eu nunca vou estar feliz por ter perdido o meu pai, mas eu sei que cresci com a experiência e isso é muito bom.

É por isso que eu não entendo o antagonismo que as pessoas fazem com histórias tristes. A arte imita a vida, então é obvio que livros e filmes terão sua dose de tristeza também. E nós temos de absorver isso como absorvemos os casais felizes, as famílias reunidas e os homens bem sucedidos, por que tudo isso é igualmente real! Se focar no lado feliz das histórias é como negar que a tristeza existe. Você pode reconhecer que sua vida tem doses de tristeza, mas admite abertamente que não quer lidar com elas. E eu sinto muito te dizer: você ainda vai ter de aturar muita merda na vida, por que a tristeza faz parte dela você querendo lidar com isso ou não. Pessoas adoecem e morrem, acidentes acontecem, erros são cometidos, decisões equivocadas são feitas, coisas se perdem e não voltam mais. 

Não tem como fugir, então faça as pazes com a tristeza e aprenda a conviver com ela.

A vida é como uma caixa de chocolates,
você nunca sabe o que vai encontrar.
Eu estava presente durante todo o problema financeiro do meu irmão. Eu me preocupei com ele, fiquei nervoso com as brigas que teve com meus pais, mas nada me afetou diretamente. Foi como assistir uma história, mas eu aprendi com aquilo. Da mesma forma, filmes e livros tristes me ensinam também. Eles oferecem um ambiente controlado para aprender a lidar com tristeza e sofrimento; uma emulação de tragédia.

Mais que isso: eles relembram o verdadeiro valor da vida. É fácil esquecer o quão incrível é estar vivo, saudável, aquecido, abrigado e alimentado quando tudo isso se torna banalidade. É fácil esquecer de se considerar as dificuldades dos outros quando você se rodeia de ideias felizes em que todo mundo que se esforça se dá bem na vida. Só que não é verdade. Nós deveríamos ser eternamente agradecidos por termos tido a sorte de continuarmos vivos. Basta ligar o noticiário para ver as taxas de mortalidade do dia. Quantas pessoas já morreram durante nossas vida? Milhares. Quantas outros nós sabemos que não tem metade das nossas oportunidades? Pois é. E isso é tudo muito triste, mas também é real. E um filme de tragédia te ajuda a entrar em termos com essas ideias, a se colocar no lugar dos outros e a respeitar o valor de uma vida.

Então eis a proposta: não se atenha apenas à tristeza na próxima vez que for ler "A Culpa é Das Estrelas" ou assistir "Réquiem Para um Sonho". Reflita sobre ela, seu significado e o que pode trazer para sua vida. Te prometo: é uma grande experiência.

Olha a cara que a Ellen Burstyn faz pra quem não gosta de história triste (cena do filme Requiem para um Sonho,
também conhecido como O FILME MAIS TRISTE QUE EU JÁ VI NA VIDA!!!!!

Já a Lauren Liney ainda te ama, apesar de você não querer assistir a luta contra o cancer que ela encena
tão lindamente em The Big C, que é tão cômica quanto trágica.

Já o pessoal de August: Osage County está bêbado demais para ter uma opinião sobre o assunto.

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3 comentários

  1. Exemplo de tristeza sofrida e bonita: qualquer livro da Kate DiCamillo. Sério. Lindos, todos eles, lindos lindos lindos tristemente lindos.

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    1. Se estiver procurando uma tristeza com bom humor indico os livros do Jonathan Tropper.

      Excluir

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