barbara morais Brasil

Você sabe quem merece ser estuprado?

31.3.14Dana Martins


Uma conversa sobre estupro com extra da Barbara Morais no final!

Por problemas com a minha avó eu estive meio distante do mundo nos últimos dias, mas meu sensor aranha não deixou de notar o Fantástico fazendo uma reportagem sobre o abuso sexual no metrô de São Paulo - que já era denunciado e causou um furor nas redes sociais. Finalmente lembraram de dar atenção a isso! Que, aliás, não acontece só no metrô de São Paulo e nem só no Brasil. Para minha surpresa, bastou uma conversa sobre isso para ouvir um "ah, já aconteceu comigo várias vezes." A surpresa é com fato disso ser considerado algo normal. 

Outra coisa que o meu sensor aranha capturou foi a pesquisa que diz que 65% dos brasileiros acham que a mulher que mostra o corpo merece ser estuprada. Se o primeiro causou o furor, esse fez as redes sociais explodirem. Como não perco a viagem, é legal reparar que o estupro também está em alta na cultura pop, com dois grandes filmes no cinema lidando com cenas de estupro: 300 - A Ascensão do Império e Divergente (no Brasil, a partir de 17 de abril). 

Mas não foi nada disso que me levou a escrever esse post, foi uma publicação no facebook de uma ex-professora minha questionando a pesquisa dos 65%. O clássico "Não conheço ninguém que acha isso! Como é que pode ser 65%? Quem foi entrevistado nessa pesquisa?" 

Porque o que importa quando a discussão é estupro é se o governo está ou não enganando a gente quanto a dados. Estupro é conto de fadas!!!! (IPEA: Instituto que fez a pesquisa do 65%)

Quando se trata desse assunto, a gente tem que pensar em vários detalhes. Por exemplo, se você falar "Você acha que a mulher merece ser abusada e violentada por causa da roupa que usa?", pode parecer até um absurdo. Falar "Você acha que a mulher tem culpa no estupro se usar roupas sensuais?" já é outra coisa. 

Mais do que isso: você tem que ir além. Eu conheço várias pessoas - homens e mulheres - que concordariam com isso. Consigo lembrar de pelo menos uma conversa em que o meu tio concordou com isso. E eu não vivo em uma ilha com um monte de homem machão bitolado. Por outro lado, não é como se o meu tio fosse estuprar alguém ou coisa assim. É a ideia problemática de:

Se vestiu de modo sensual. Tava querendo. Aí consegue e depois reclama? Se não queria não vestia roupas sensuais!!!!

E ainda tem a ideia do que é sensual, né? Se eu entrar na piscina de biquíni com os amigos está tudo bem, se eu passar de calcinha e sutiã na frente dos meus amigos "to querendo."

Pior ainda: eu posso estar querendo. E daí?

Também estou querendo viajar pelo mundo e ninguém vem aqui me dar uma passagem.

Mas falando sério: Eu posso estar querendo fazer sexo. Ou posso estar querendo chamar atenção. Ou posso estar querendo ser elogiada pelo meu corpo. Ou posso estar morrendo de calor. Mas nada disso é um cartão verde para qualquer um vir fazer sexo comigo como bem entender. 

Isso não é motivo para me desvalorizar como ser humano e merecer ser "castigada" com o abuso do meu corpo. 

Sabe quem merece isso?

NINGUÉM.

Essa citação acima é da Barbara Morais e eu pretendia usar no final, mas acho importante enfatizar isso. Porque essa é a questão. Não importa que a pessoa seja uma freira, use burca, faça topless na praia ou esteja rebolando em uma barra de ferro - isso não é desculpa para você diminuir o valor dela como ser humano e passar por cima da capacidade dela de tomar as próprias decisões. E, pra ser sincera, a pessoa não deve ser abusada principalmente se ela não puder tomar as próprias decisões. (bêbada, por exemplo)

E agora voltando para o que a minha ex-professora dizia lá. Acho que a parte mais alarmante é que o espanto não é com o fato de haver pessoas que acreditam que alguém merece ser estuprado, era pela pesquisa ter um resultado que não condiz com a realidade que ela enxerga (“ABSOLUTAMENTE NINGUÉM que eu conheço compartilha dessa idéia.”), o que é uma afronta, porque essa pesquisa não deve ser verdadeira! 

Aí é que está a importância da pesquisa dos 65%. O número sendo verdade ou não (quer dizer, se fosse 30% estava tudo bem?), ele chama atenção para esse assunto. E atenção para esse tipo de conversa é o que nós precisamos.

Não fiz nenhuma pesquisa, mas aposto que se houvesse mais informação sobre a cultura de estupro muitas vidas seriam salvas. Sim, estupro não é apenas sexo com alguém que disse "não" - é um crime contra a vida. 

E sabe quem merece isso?
NINGUÉM.


-dana martins


Pense mais sobre a situação da mulher com outras conversas.


Na foto: Nana Queiroz, que começou a campanha "Não pereço ser estuprada."

Você sabia que 80% dos estupros acontecem dentro de casa? Nem eu. 

Essa é só uma das informações que mostram como todos estamos longe de nos conscientizar sobre o que é estupro, quando ele acontece e como evita-lo. Abaixo um texto da Barbara Morais publicado no facebook sobre a pesquisa dos 65% e que foi o empurrão final que eu precisava para trazer o assunto para o CC. 

Vamos conversar sobre o estupro. Esse 65% de pessoas entrevistadas com certeza não sabe muito sobre ele - provavelmente não sabem que aproximadamente metade das mulheres (ou melhor dizendo, meninas) estupradas tem menos de 13 anos, não sabem que aproximadamente 80% é estuprada por algum conhecido da família, não sabem que 23% são estupradas pelo próprio pai ou padrasto, não sabem que quase 80% delas são estupradas DENTRO DE CASA.

Eles não sabem que a maior parte dos estupros não são relatados, que esses números podem ser muito maiores, que elas podem ter alguém muito próximo que sofreu algum tipo de abuso mas não fala. E quando elas dizem que "Mulher de Roupa Curta Merece Ser Atacada", elas estão silenciando ainda mais as vítimas. Outra opinião da pesquisa é "Se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros" e a minha pergunta é: Como as mulheres devem se comportar?

Como a menina de 8 anos que foi abusada pelo próprio pai deveria se comportar? Não falar com ele? Como a garota de 12 que foi vítima do próprio primo ou tio ou amigo da família deveria se comportar? Ficar trancada dentro de uma gaiola porque homens são criaturas irracionais que não podem ver mulher? Como a mulher de 35 anos que estava voltando para casa de noite deveria se comportar? Não sair de casa? Sair de casa acompanhada de um Homem De Bem para protegê-la? Como a mulher de 18 anos que foi estuprada pelo próprio namorado devia se comportar?

Ninguém pergunta como os homens devem se comportar, porque "homem é assim mesmo". Homem não consegue se controlar se a mulher provoca. O instinto masculino é mais sexual e violento que o da mulher. Vem da evolução da espécie, o homem caçador que precisa espalhar sua progênie no mundo!!111!!!!

Francamente, eu acredito que vocês são melhores do que isso - que a gente é melhor que isso. As pessoas e a vida não são tão preto no branco assim, a "natureza humana" não funciona dessa forma. 

O estupro é uma forma de demonstrar superioridade e poder. Não é feito só por "tarados sexuais" ou por "maníacos descontrolados", ele é feito como forma de humilhar, silenciar e diminuir a vítima, seja ela homem ou mulher. Então quando dizem que mulher de roupa curta merece ser estuprada, o que querem dizer é que ela tem que ser humilhada, tem que ser reprimida, tem que ser podada.

Sabe quem merece isso?
NINGUÉM.

TAGS: , , , , , , , , ,

Mostre para o autor o que você achou Recomende:

MAIS CONVERSAS QUE VOCÊ VAI GOSTAR

7 comentários

  1. Nossa, esse texto não poderia vir em melhor hora.

    Domingo, tive uma discussão cabulosa com uma tia porque ela viu uma mulher no ônibus de shortinho e decote e falou, "daí é estuprada fica falando que não é culpada. Usando uma roupa daquelas...". Meu povo, chega levantei da mesa de emoção para bater-boca com minha tia e explicar que o problema não é a roupa que a mulher estava usando, mas as pessoas que não a tratavam como um ser humano que merece respeito. Aí, ela deturpou tudo o que eu disse e concordou, "De fato, ela não se dá o respeito".

    Tive que, calmamente (o mais calmo que consegui de sangue quente), explicar juntamente com o apoio da minha mãe, da minha vó e das minhas outras tias que quem estava faltando com o respeito com a mulher do ônibus, com qualquer mulher e com qualquer vítima de estupro era ela ao falar essas coisas, porque como a própria Barbarella e você, Dana, comentaram: Ninguém merece isso. NINGUÉM.

    Falar que uma mulher deve ser estuprada por conta da roupa que ela veste é uma ignorância extrema e disfarça o verdadeiro problema na nossa sociedade machista ao vitimizar o culpado e culpar o inocente, pois o problema não está roupa que uma pessoa veste, o problema está em quem julga e dá carta branca para o estuprador. Essa gente não para pensar e nem para para ouvir que o problema está com eles e na sociedade.

    Mas o pior de tudo é que essa justificativa acontece para todos os tipos de crime, "Estava andando no beco escuro e foi assaltado? Pediu por isso", "Estava usando roupa curtinha e foi estuprada? Pediu por isso", "Sofreu sequestro relâmpago porque demorou a sair do carro? Pediu por isso". E a lista só vai aumentando a partir daí.


    Gente, só de pensar em tudo isso, fico roxa de raiva. Me irrita saber que minha vó criou todo mundo tão bem e me sai uma tia daquele jeito, sabe? Não sei como a minha tia ficou assim, porque ela é a ÚNICA dentro da minha família do lado da mamãe que ficou com essas ideias de jerico.

    Não consigo conceber como existe gente assim no mundo.

    Mas o pior é saber que essas pessoas são maioria, infelizmente.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Antes de tudo: que orgulho de você, Valéria <3 Por falar e mostrar o outro lado. E é extremamente difícil se impor assim e mostrar outra perspectiva. Outro dia mesmo, eu estava conversando com o meu avô e a minha tia sobre a minha avó no hospital, e o meu avô tem uma tendência enorme a encontrar culpados. ("é aquele médico merda!" "é aquela enfermeira idiota") Eu não sei o que eu falei, eu sei que no fim ele resumiu o que eu tinha dito a "devemos bater em todos os médicos!" e eu tipo wtf.

      Acho que essa questão de sempre arranjar justificativa... é uma mistura de várias coisas. Tipo, todo mundo quer entender o que aconteceu e é fato que é mais fácil ser assaltado andando no beco escuro ou ser assediada usando roupa curta. E é horrível que a gente se encontre em situações de restringir nossa liberdade de ir ou vir ou se expressar por causa dessas coisas. Por um lado, é importante as pessoas saberem que X coisa é mais perigoso. Por outro... é extremamente problemático quando esses avisos se tornam frase-feita como se apenas saber que roupa curta fosse resolver alguma coisa. Às vezes a pessoa nem pensa no que tá falando (maioria) e o resultado: a mensagem se transforma em "estuprar quem usa roupa curta é ok"

      E a maioria pode ser assim, mas é algo como eco. As pessoas repetem o que escutam. Se a gente começar a ecoar coisas diferentes como você fez... (:

      Excluir
  2. um problema muito grande com o estupro é essa ideia de que eles só acontecem de madrugada quando a mina bebada de vestido curto passa por um beco escuro sozinha quando, na verdade 80% (!!!!!!!) dos estupros acontecem dentro de casa por pais, tios, vizinhos, amigos da familia, padastros, maridos e namorados (esses então ninguem acredita, porque aparentemente ter um relacoinamento é sinonimo de consentimento sempre que o cara quiser).

    mas outra coisa que anda me incomodando é que as pessoas nas internetes nao param de falar da pesquisa mas não aprofundam o assunto. eu fico olhando os caras que compartilham textos falando sobre como eles tem vergonha dos homens entrevistados dizendo que homem que estupra nao é Homem de Verdade (mas é. homem de verdade estupra. tratar um estuprador como um monstro e não como um homem não ajuda as vitimas em nada) e falando que fazem parte dos 35% e me pergunto se eles fazem mesmo. se eles nunca deixaram uma mina com medo de dizer não, se nunca se aproveitaram de uma mina que nao podia consentir por estar bebada, se nunca fizeram pressão na namorada quando ela disse que nao tava afim, se nunca continuou quando uma mina disse que nao queria mais.

    porque isso também é estupro.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você tocou em um um assunto muito importante: conhecimento. É muito complicado falar "vamos acabar com o estupro!" se as pessoas não sabem nem o que é considerado estupro em si.

      O "eu não mereço ser estuprada" é um ótimo passo para enfrentar essa ideia de "usou roupa curta, mereceu", além de ajudar a desconstruir esse falso conservadorismo (mulher que se preza usa roupa curta - vestir roupa sensual não é coisa de menina direita).

      Acontece até um outro tipo de "estupro" que eu acho perigoso e ninguém fala: a pressão social para perder a virgindade e ser o pegador, ainda mais se você for homem. Tem pai que leva filho pra prostituta só pra isso. Ou situações que a pessoa se sente forçada a fazer mesmo sem sentir vontade ou estar preparada. Ou pior: acaba forçando outra pessoa a fazer (dá bebida, ou os casos dos amigos legais que querem a recompensa pela amizade), só por causa dessas coisas.

      A pergunta é: como fazer as pessoas começarem a ter noção dessas coisas e reagirem contra isso?

      - dana

      Excluir
    2. Para acabar com o estupro a gente vai ter que acabar com a cultura do estupro, uma cultura que naturaliza o estupro, culpa a vítima e trata sexualidade de forma compulsória.

      A nossa sociedade naturaliza o estupro quando impede que meninas de shorts ou saias curtas entrem em escolas dos Estados Unidos. Quando trata o estupro como algo instintivo, algo que o homem não pode controlar. Ao fazer piadas sobre estupro. Quando você ouve seu colega de classe dizer "eu estuprei a tela do meu celular" ao falar do número de pontos no flappy bird, transformando aqui o estupro em algo positivo. Naturaliza o estupro em comerciais de cerveja que relacionam o "nível de dificuldade" com o número de calorias que podem ser perdidas. Naturaliza quando trata estupro como algo inevitável. Isso é cultura do estupro.

      E nós aprendemos que a culpa sempre é da vítima. Se você estava de roupa curta, bêbada ou sozinha você estava pedindo. Se estava de calça jeans então obviamente não foi estupro já que calças são difíceis de abrir e o cara ia precisar da sua ajuda. E mesmo quando a vítima está de burqa ela é culpada, já que não existe nada mais provocante do que passar rímel. A culpa do estupro é nossa porque nós nos vestimos errado, bebemos nos momentos errados, nos portamos de um jeito errado, confiamos nas pessoas erradas, saímos nas horas erradas e mandamos sinais errados. O patriarcado faz todo tipo de malabarismo possível para nos atribuir a culpa pelo abuso que nós sofremos, mas a culpa não é nossa. Nunca. Dizer que a culpa é nossa é cultura.

      Sobre situações onde a pessoa se sente forçada a fazer sexo mesmo sem sentir vontade ou estar preparada, eu atribuo isso ao modo como a nossa sociedade enxerga sexo e intimidade, ou seja, de forma compulsória. Nós vemos sexo como algo mandatório ao ponto de que se uma pessoa não tem interesse/vontade de fazer sexo ela é vista como anormal. Nós presumimos que se duas pessoas estão em um relacionamento elas DEVEM fazer sexo. Nós vemos as relações que não envolvem sexo como menos importantes. Nós consumimos sexo na forma de prostituição e pornografia, e se você precisa pagar pelo consentimento então ele não existe. Nós tratamos sexualidade como algo compulsório de forma geral, e ela é compulsória de forma misógina quando se trata de mulheres. Isso é cultura do estupro.

      Excluir
    3. O tempo todo eu estou falando que homens estupram mulheres porque essa é a norma e para combater uma cultura o interessante é focar na norma, não nas exceções. 91% das pessoas estupradas são mulheres e 99% dos estupradores são homens (Bureau of Justice Statistics, 1999);. É importante ter em mente que homens estupram. Que homens estupram para coagir, submeter e controlar suas vítimas. Que o estupro é um tipo específico de violência usada deliberadamente como arma da opressão de gênero.

      Outra coisa que nós sempre precisamos ter em mente: mulheres não são machistas. Mulheres podem reproduzir o discurso machista, sim, mas isso não traz nenhum benefício a elas. Mulheres não se beneficiam da opressão machista de outras mulheres, mesmo quando elas reproduzem o discurso machista. Só quem se beneficia do machismo são os homens.

      Nós somos ensinadas a reproduzir o discurso machista porque isso atrapalha a nossa organização como classe oprimida, nos impede de lutar contra essa opressão como um grupo. Nós não podemos deixar isso acontecer. Temos que formar redes de apoio, que dar vós as vítimas, que nos unir, que marchar nas ruas, que praticar a sororidade. É benéfico para os homens nos ter separadas. Não podemos deixar isso acontecer. Juntas somos mais fortes.

      E não podemos parar de falar. De espalhar informação. De mostrar solidariedade com as vítimas. De boicotar etupradores (Woody Allen não merece que a gente assista seus filmes. Jared Leto não merece prémios. Alex Day e Tom Milsom não merecem seguidores. Chega de perdoar estupradores). Sempre vão tentar nos calar, inclusive muito conveniente a ipea por acaso ter uma margem de erro de uns 40% depois de toda mobilização que surgiu por causa dessa pesquisa. Mas nós não podemos parar de falar.

      (wow meio que escrevi dois textos aqui e já ia esquecer de falar a coisa mais importante: ótimo post)

      Excluir

Posts Populares

INSTAGRAM


Instagram

FALE COM A GENTE!

Nome

E-mail *

Mensagem *